João Eduardo Ornelas
COLANDO ISOPOR
O Nascimento foi passando a cola e espalhando as peças de isopor para secar , e ao retornar à primeira para ver se já estava seca , não a encontrou e ficou intrigado. Procurou pelo chão e nas redondezas , pensou que fosse algum tipo de brincadeira e somente depois de alguns instantes descobriu oque estava acontecendo.
--Vocês tinham conhecimento disso?
Confirmando que sabíamos de tudo e não o alertamos, ficou na bronca , fechou a cara e foi embora .
--É, o Nascimento ficou com raiva , não volta aqui tão cedo .
Numa oportunidade Nascimento apareceu com um barril de carvalho , muito antigo e deu na telha de restaurá-lo. Convocou a ajuda profissional do Zé da Fia e os dois se puseram a fazer o serviço . O Zé colocando as mãos na massa e o Nascimento cagando regras . Rasparam e lixaram toda a madeira e os arcos que ficando tudo como novo . Remontaram o barril e fabricaram uma estrutura para apoiar em cima . Colocaram uma torneira nova que o Nascimento fez questão absoluta que fosse também de madeira , e envernizaram dando o toque final . O tonel ficou uma maravilha , uma obra digna deorgulho . Seu feliz proprietário levou-o para casa todo envaidecido enchendo-o com cachaça de primeira qualidade , fabricada artesanalmente . A peça virou atração turística.
Os convidados não viam a hora de provar da danada da pinga , ainda mais com o cheiro de torresmo que vinha da cozinha onde Dona Maria Emilia caprichava no tira gosto . Nascimento solenemente pega um copo apropriado para pinga , faz mais uma pausa para falar sobre a torneira feita de jacarandá , e por fim pára o copo e abre o registro . Tomados de enorme expectativa os presentes aguardam ansiosos o precioso líquido jorrar . Passa alguns instantes e nada da pinga sair . Nascimento remanuseou a torneira pensando que havia emperrado, espera mais um pouco e nada . Desconfiado mexe no barril constatando que está cheio , e já meio sem graça comenta que não estava entendendo nada . Nesse instante começa a sair uma gosma gelatinosa esverdeada, fedorenta pra daná, e cai aquela plasta no fundo do copo . Os convidados se olham assustados e ficam sem saber o que dizer . Passada asurpresa , tentam segurar o riso e um deles diz:
--É, Seu Nascimento, parece que algo não saiu como planejado.
Nascimento roxo de vergonha pede desculpas , chama o Renato e o manda buscar urgentemente um litro de Cristalina lá no bar do Seu Mário a fim de salvar as aparências .
Houve uma época em que o Nascimento Moreira comprava tudo o que encontrava de jacarandá pela região . A nobre madeira já naquela época era uma raridade e tudo que se encontrava era uma peça aqui e outra ali , que muitas vezes não passava e meros tocos de madeira , à vezes muito defeituosos.Mas ele comprava mesmo assim , ia juntando aquele monte de paus e levando para oficina . Meu pai de vez em quando se referia àquele material como sendo “a lenha do Nascimento”, sem seu conhecimento , óbvio . Ele garimpava os jacarandás pelas serrarias e fazendas da região e meu pai era incumbido de lapidar aquilo tudo : remendava, tapava buracos , igualava tonalidades , betumava gretas etc. tudo sempre sob a batuta do maior interessado, ou seja, o dono do projeto . Dessa operação toda saíram 06 cadeiras de jacarandá , com assento de palhinha empalhados em Juiz de Fora .
A segunda etapa do projeto seria a confecção da mesa que o cliente fazia questão absoluta de que fosse de tampo oval . Foi difícil encontrar madeiras grossas o bastante para fazer os pés torneados, mas paciência e exigência não faltavam. Na hora de fazer o tampo , o Nascimento fez questão dedesenhar ele próprio o molde oval para construção da estrutura que receberia uma pedra de mármore carrara, também importado de Juiz de Fora . Só que ele cismou e teimou em fazer o desenho usando um compasso . Improvisou um instrumento de madeira , já que deveria ter um tamanho bastante grande , e pelejou o dia inteiro em cima de uma folha de compensado , mas não conseguiu desenhar o tal oval . Meu pai , conhecendo bem o amigo , se limitava a observar tudo à distancia enquanto prosseguia com o serviço normal da oficina .
Chegando à tarde o Nascimento falou:
--Deixa que amanhã eu termino, pois já estou com a cabeça quente .
--Terminar o que se ele não fez nada ainda ?
No dia seguinte , chegou cedo e reiniciou as tentativas . Lá pelas dez da manhã , deu-se por vencido e autorizou ao Juquita que riscasse à sua maneira . Ai o velho profissional , munido de metro , martelo , pregos e barbante , desenhou um oval perfeito com menos de 15 minutos , submetendo-o ao crivo rigoroso do cliente . Este olhou daqui, olhou dali, efetuou algumas medidas e aprovou o desenho . Autorizou o serviço e despediu-se dizendo que precisava viajar . Chegando na porta , virou para trás e falou:
--Vou deixar esse mesmo que estou com pressa , mas que eu risco com o compasso , eu risco .
E saiu batido .
Acredito que Dona Maria Emilia deva ter esses móveis até hoje .
É sempre assim , as pessoas passam por nossas vidas e se vão , porém se eternizam na lembrança dos que ficam e nas obras que deixam.
Leia o desdobramento da história do barril
No dia 29 de maio publiquei a história do convívio do Nascimento Moreira com meu pai no tempo em que o primeiro freqüentava a oficina do segundo . Um dos casos narrados se refere a um barril de madeira nobre que foi restaurado pelo Nascimento lá na oficina e que deu muito pano pra manga ,pois a cachaça misturou-se à cola e virando uma porcaria . Logo depois o Flávio publicou o mesmo texto na página da Família Moreira, e o João Augusto , filho do Sr. Totônio Moreira, relatou o seguinte :
Acabo de ler o causo "COISAS DA OFICINA " e, por conseqüência , também acabo de descobrir porque foi que o tio Nascimento me deu um belo barril de carvalho (que na verdade nunca foi de carvalho - era um barril de chope , bem antigo e de uma boa madeira importada, mas não carvalho ).
O barril estava sem uso , precisando de uma reforma e, através por um pedido do meu pai , (Totônio), o João Ricardo o desmontou e novamente montou. Trouxe para São Paulo, cidade em que eu residia à época . Comprei uma cachaça envelhecida em toneis - estes de carvalho , numa destilaria na região de Paulínia (curiosidade : nesta destilaria , além do movimento normal de produção e venda que era muito grande , não sei precisar o quanto , tinha 10 toneis de carvalho de 100.000 l cada (não é erro ,são cem mil mesmo ). Bem , comprei a pinga , pus no meu barril e .... muito tempo depois , tal qual o tio Nascimento, quando tentei tomar uma, nada saiu da torneira . Catuquei com alguma coisa pela boca da torneira e, advinhem, saiu uma geleia com cheiro de cola ou verniz .
1) porque ele me deu o barril ;
2) ou o João Ricardo me enrolou, ou a cola que o tio Nascimento e seus técnicos Zé-da-fia e Juquita usaram era das boas e empregnou a madeira .
Agum tempo depois , dei o barril de presente para um mineiro "bão-de-pinga", vizinho do Paulo Fernando, que muito me agradeceu e disse: vou fazer um almoço "a mineira " e convidar você coma a família . Isto tem alguns anos . Até hoje o almoço não saiu.
Parece que ele também , depois de curtir uma boa pinga no barril , encontrou geleia fedorenta quando abriu a torneira .
Uma dúvida : Será que o Nascimento ficou sabendo do ocorrido com o sobrinho ? Ou este para não desengraçar ao tio , poupou-o de contar o fato ? Nesse caso o Nascimento dever ter ficado numa dúvida cruel e com uma pontinha de inveja pensando que talvez o barril houvesse se curado.
Se por outro lado tomou conhecimento , deve ter rido por dentro do trote que passou no sobrinho .
Acho que vamos ficar na dúvida .
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