sexta-feira, 23 de março de 2012

TIPOS DA OFICINA: NASCIMENTO MOREIRA

TIPOS DA OFICINA – NASCIMENTO MOREIRA
 João Eduardo Ornelas
Um grande amigo que meu pai teve, Nascimento Moreira, fiscal do estado e marido da Dona Maria Emília, diretora do grupo era freqüentador assíduo da oficina. Ele e meu pai conversavam horas a fio, uma conversa interminável.  Inteligente, criativo e inovador, Nascimento sabia também às vezes serchato e teimoso. Ficava alguns dias da semana fora da cidade a serviço, mas nas folgas ia religiosamente à oficina onde sempre inventava alguma moda. Eu adorava, pois ele comumente me dava algumas moedas para que eu fosse na sua casa buscar água gelada. Quero contar algumas de suasfaçanhas das muitas passadas na oficina.
 COLANDO ISOPOR
Certa vez não me recordo para que, Nascimento estava fazendo um serviço com isopor. Decidiu usar cola fórmica, também conhecida como cola de sapateiro para colar as peças. Esse tipo de cola é usado sendo espalhada em ambas as superfícies a serem coladas que são unidas depois de secas. Poisbem, o que ele não sabia é que o isopor simplesmente desaparece ao contato com a cola de sapateiro que é de feita de uma química muito forte. Descobrimos esse fenômeno quando certa vez o Noé foi lá na oficina com uma bola de isopor tentar colar nela pedaços de espelho para decorar suaLanchonete.
O Nascimento foi passando a cola e espalhando as peças de isopor para secar, e ao retornar à primeira para ver se já estava seca, não a encontrou e ficou intrigado. Procurou pelo chão e nas redondezas, pensou que fosse algum tipo de brincadeira e somente depois de alguns instantes descobriu oque estava acontecendo.
  Diante das risadas do Zé Pedrosa e de meu pai perguntou:
--Vocês tinham conhecimento disso?
Confirmando que sabíamos de tudo e não o alertamos, ficou na bronca, fechou a cara e foi embora.
Meu pai comentou preocupado:
--É, o Nascimento ficou com raiva, não volta aqui tão cedo.
Que nada, na semana seguinte lá estava ele com um novo projeto.

BARRIL DE CACHAÇA.
Numa oportunidade Nascimento apareceu com um barril de carvalho, muito antigo e deu na telha de restaurá-lo. Convocou a ajuda profissional do Zé da Fia e os dois se puseram a fazer o serviço. O Zé colocando as mãos na massa e o Nascimento cagando regras. Rasparam e lixaram toda a madeira e os arcos que ficando tudo  como novo. Remontaram o barril e fabricaram uma estrutura para apoiar em cima. Colocaram uma torneira nova que o Nascimento fez questão absoluta que fosse também de madeira, e envernizaram dando o toque final. O tonel ficou uma maravilha, uma obra digna deorgulho. Seu feliz proprietário levou-o para casa todo envaidecido enchendo-o com cachaça de primeira qualidade, fabricada artesanalmente. A peça virou atração turística.

Passado um certo tempo, Nascimento recebeu em sua casa um grupo de amigos especiais e decidiu então inaugurar o uso de sua reserva pessoal de aguardente. Antes porém narrou aos deslumbrados visitantes toda sua aventura como o barril, falando de sua origem, sua idade estimada, darestauração empreendida no mesmo a qual ele próprio efetuou com suas próprias mãos, apenas coma a  ajudazinha de um amigo chamado Zé da Fia, funcionário de um outro amigo, o Juquita Marceneiro. Por fim deu a ficha completa da cachaça que descansava em seu interior discorrendo sobre suafabricação e origem.

Os convidados não viam a hora de provar da danada da pinga, ainda mais com o cheiro de torresmo que vinha da cozinha onde Dona Maria Emilia caprichava no tira gosto. Nascimento solenemente pega um copo apropriado para pinga, faz mais uma pausa para falar sobre a torneira feita de jacarandá, e por fim pára o copo e abre o registro. Tomados de enorme expectativa os presentes aguardam ansiosos o precioso líquido jorrar. Passa alguns instantes e nada da pinga sair. Nascimento remanuseou a torneira pensando que havia emperrado, espera mais um pouco e nada. Desconfiado mexe no barrilconstatando que está cheio, e já meio sem graça comenta que não estava entendendo nada.  Nesse instante começa a sair uma gosma gelatinosa esverdeada, fedorenta pra daná, e cai aquela plasta no fundo do copo. Os convidados se olham assustados e ficam sem saber o que dizer. Passada asurpresa, tentam segurar o riso e um deles diz:
--É, Seu Nascimento, parece que algo não saiu como planejado.
 Nascimento roxo de vergonha pede desculpas, chama o Renato e o manda buscar urgentemente um litro de Cristalina lá no bar do Seu Mário a fim de salvar as aparências.
 Mais tarde vai ele lá na oficina confabular com o Zé da Fia e tentar descobrir o motivo daquilo tudo. Chegaram à conclusão de que como eles haviam usado cola branca de madeira para calafetar as juntas do barril, essa ao contato com a cachaça derreteu, formando assim a gosma esverdeada. Chateado, Nascimento aposentou o barril para sempre.
 MESA OVAL.
Houve uma época em que o Nascimento Moreira comprava tudo o que encontrava de jacarandá pela região. A nobre madeira já naquela época era uma raridade e tudo que se encontrava era uma peça aqui e  outra ali, que muitas vezes não passava e meros tocos de madeira, à vezes muito defeituosos.Mas ele comprava mesmo assim, ia juntando aquele monte de paus e levando para oficina. Meu pai de vez em quando se referia àquele material como sendo “a lenha do Nascimento”, sem seu conhecimento, óbvio. Ele garimpava os jacarandás pelas serrarias e fazendas da região e meu pai eraincumbido de lapidar aquilo tudo: remendava, tapava buracos, igualava tonalidades, betumava gretas etc. tudo sempre sob a batuta do maior interessado, ou seja, o dono do projeto. Dessa operação toda saíram 06 cadeiras de jacarandá, com assento de palhinha empalhados em Juiz de Fora.
 A segunda etapa do projeto seria a confecção da mesa que o cliente fazia questão absoluta de que fosse de  tampo oval. Foi difícil encontrar madeiras grossas o bastante para fazer os pés torneados, mas paciência e exigência não faltavam. Na hora de fazer o tampo, o Nascimento fez questão dedesenhar ele próprio o molde oval para construção da estrutura que receberia uma pedra de mármore carrara, também importado de Juiz de Fora. Só que ele cismou e teimou em fazer o desenho usando um compasso. Improvisou um instrumento de madeira, já que deveria ter um tamanho bastantegrande, e pelejou o dia inteiro em cima de uma folha de compensado, mas não conseguiu desenhar o tal oval. Meu pai, conhecendo bem o amigo, se limitava a observar tudo à distancia enquanto prosseguia com o serviço normal da oficina.
 Chegando à tarde o Nascimento falou:
--Deixa que amanhã eu termino, pois já estou com a cabeça quente.
Quando ele saiu o pai comentou:
--Terminar o que se ele não fez nada ainda?
 No dia seguinte, chegou cedo e reiniciou as tentativas. Lá pelas dez da manhã, deu-se por vencido e autorizou ao Juquita que riscasse à sua maneira. Ai o velho profissional, munido de metro, martelo, pregos e barbante, desenhou um oval perfeito com menos de 15 minutos, submetendo-o ao crivorigoroso do cliente. Este olhou daqui, olhou dali, efetuou algumas medidas e aprovou o desenho. Autorizou o serviço e despediu-se dizendo que precisava viajar. Chegando na porta, virou para trás e falou:
--Vou deixar esse mesmo que estou com pressa, mas que eu risco com o compasso, eu risco.
E saiu batido.
 Acredito que Dona Maria Emilia deva ter esses móveis até hoje.
É sempre assim, as pessoas passam por nossas vidas e se vão, porém se eternizam na lembrança dos que ficam e nas obras que deixam.

Leia o desdobramento da história do barril

No dia 29 de maio publiquei a história do convívio do Nascimento Moreira com meu pai no tempo em que o primeiro freqüentava a oficina do segundo. Um dos casos narrados se refere a um barril de madeira nobre que foi restaurado pelo Nascimento lá na oficina e que deu muito pano pra manga,pois a cachaça misturou-se à cola e virando uma porcaria. Logo depois o Flávio publicou o mesmo texto na página da Família Moreira, e o João Augusto, filho do Sr. Totônio Moreira, relatou o seguinte:

Acabo de ler o causo "COISAS DA OFICINA" e, por conseqüência, também acabo de descobrir porque foi que o tio Nascimento me deu um belo barril de carvalho (que na verdade nunca foi de carvalho - era um barril de chope, bem antigo e de uma boa madeira importada, mas não carvalho).
O barril estava sem uso, precisando de uma reforma e, através por um pedido do meu pai, (Totônio), o João Ricardo o desmontou e novamente montou. Trouxe para São Paulo, cidade em que eu residia à época. Comprei uma cachaça envelhecida em toneis - estes de carvalho, numa destilaria na regiãode Paulínia (curiosidade: nesta destilaria, além do movimento normal de produção e venda que era muito grande, não sei precisar o quanto, tinha 10 toneis de carvalho de 100.000 l cada (não é erro,são cem mil mesmo). Bem, comprei a pinga, pus no meu barril e .... muito tempo depois, tal qual o tioNascimento, quando tentei tomar uma, nada saiu da torneira. Catuquei com alguma coisa pela boca da torneira e, advinhem, saiu uma geleia com cheiro de cola ou verniz.
Agora entendo:
1) porque ele me deu o barril;
2) ou o João Ricardo me enrolou, ou a cola que o tio Nascimento e seus técnicos Zé-da-fia e Juquita usaram era das boas e empregnou a madeira.
Agum tempo depois, dei o barril de presente para um mineiro "bão-de-pinga", vizinho do Paulo Fernando, que muito me agradeceu e disse: vou fazer um almoço "a mineira" e convidar você coma a família. Isto tem alguns anos. Até hoje o almoço não saiu.
Parece que ele também, depois de curtir uma boa pinga no barril, encontrou geleia fedorenta quando abriu a torneira.
 Não é interessante? Narrei a historia rebuscando detalhes na memória, correndo o risco de ser infiel à realidade, e para minha surpresa aparece alguém que não só  confirmar que eu estava como narra o desfecho de tudo.
 Uma dúvida: Será que o Nascimento ficou sabendo do ocorrido com o sobrinho? Ou este para não desengraçar ao tio, poupou-o de contar o fato? Nesse caso o Nascimento dever ter ficado numa dúvida cruel e com uma pontinha de inveja pensando que talvez o barril houvesse se curado.
 Se por outro lado tomou conhecimento, deve ter rido por dentro do trote que  passou no sobrinho.
Acho que vamos ficar na dúvida.

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