OLEGÁRIO MATTA
João Eduardo Ornelas
Lembro-me desse Senhor, Olegário Matta, uma figura altiva usando chapéu de lebre sempre bem vestido e falador. Era marido da Dona Caridade, filha do Stanislaw, e servente do grupo, a encarregada de tocar o sino. Os comentários que ouvi a seu respeito o colocam na conta de uma pessoavaidosa, novidadeira e à frente de seu tempo. Imputam a ele várias histórias na maioria chacotas, não sei até que ponto verdadeiras.
FRENQUENTADOR DA OFICINA
Seu Olegário poderia muito bem ser classificado como uma das personalidades da oficina pois conforme apurei adorava sapear lá pelas bandas do curral do Sr. Waldir Carvalho onde funcionava a marcenaria. Como era muito criança na época e não tenho lembranças do local, narro o que me foipassado, nem mais nem menos.
Trabalhava no local um tal de Zico, remanescente da turma de Miradouro. Zico era um moleque incorrigível e sempre aprontava, tanto com os colegas quanto com os visitantes e clientes. Abro um parênteses para contar uma das suas, aprontada ainda em Miradouro.
Certa vez em Zico furou alguns pedaços de madeira, colocou dentro bombas do tipo cabeça de nego e tapou os furos novamente com madeira de modo a dissimular totalmente a operação. Colocou as peças de forma que uma senhora vizinha da oficina que tinha o costume de pegar sobras para usar nofogão as levasse, o que de fato ocorreu. Próximo da hora do almoço ouviu-se um grande estouro, barulho de panelas caindo e gritos histéricos de mulher. É que um pedaço de madeira, ou melhor, uma bomba preparada pelo Zico havia explodido, e a panela voado pelos ares derramando todo oconteúdo. A mulher gritava apavorada, e somente por muita sorte, sua e do autor do ato inconseqüente, não sofreu queimaduras, apenas susto. E o Zico foi o primeiro a chegar para socorrê-la como se não soubesse de nada. A mulher que tinha mania de juntamente com as sobras pegar madeiras queseriam utilizados nos móveis, o que motivou a peça pregada pelo Zico, nunca mais voltou na oficina.
Com o Sr. Olegário aconteceu algo parecido. Como era um sapo muito dos chatos, Zico esperou o momento em que ele estivesse de costas no rumo da serra circular em funcionamento, e então jogou um toco de madeira na serra. O toco foi projetado feito uma bala e passou zunindo próximo ao ouvidodo Sr. Olegário que quase morreu de susto. Zico desligou a máquina, fez cara de assustado e correu para o Sr. Olegário para saber se estava tudo bem. Aproveitou para alertar ao ilustre senhor dos perigos de permanecer em locais de trabalho onde haviam máquinas funcionando e vários tipos deacidentes poderiam ocorrer. Sutilmente aconselhou-o a não repetir a imprudência de comparecer naquele recinto perigoso, que ficaria satisfeito de poder desfrutar de sua companhia e conversa sempre agradáveis em outra ocasião lugar mais apropriados. Seu Olegário processou muito bem a senhae sabiamente atendeu ao conselho.
SOPA DOURADA.
Sr. Olegário viajava muito, principalmente para o Rio de Janeiro, e nessas viagens freqüentava muitos ambientes requintados tais como museus, hotéis e restaurantes. E tudo era motivo para que contasse longas histórias que deixavam patente sua vasta experiência pelo mundo afora.
Mas nem todas as histórias eram enaltecedoras. Conta-se por exemplo que uma vez estava num restaurante muito chique e ao olhar o cardápio decidiu-se pelo prato que julgou ser mais pomposo: sopa dourada. Ligou o nome dourada a ouro, pensando ser um prato chique, consumido por reis e rainhas.Para sua surpresa e desapontamento tratava-se de uma sopa de moranga madura, e para não dar o braço a torcer comeu tudo e até elogiou o sabor. Mas estava ainda ficou com fome e babando com o ocupante da mesa ao lado que se fartava com um belo de um filé à cavalo com arroz e batata frita.Quando o homem gritou para o garçom que queria bis, e este o serviu outra rodada de filé, Seu Olegário não perdeu tempo. Falou para o garçom que queria bis também, e quase chorou quando este lhe serviu outra tigela de moranga madura.
BANDEIRA DO BRASIL
Sempre antes de viajar, Sr. Olegário recebia várias pessoas em sua casa que iam até ele encomendar coisas da cidade grande que não tinha na região. Ele adorava todo aquele movimento que lhe dava um ar de importante e prazerosamente recebia a todos com a maior educação, como se fosse umestadista recebendo em audiência. Numa de suas viagens recebeu a visita da diretora do grupo que tinha uma encomenda a fazer:
--Seu Olegário, a nossa bandeira do Brasil está muito velhinha, desbotada e até remendada. Já é hora de adquirirmos outra. Como a festa junina que fizemos rendeu um bom dinheiro, eu vim aqui pedir para o senhor trazer uma bandeira nova lá do Rio de Janeiro.
--Perfeitamente, minha senhora, vou anotar aqui.
E pegou o bloco de encomendas e escreveu lá: trazer uma bandeira do Brasil para o grupo.
Quando retornou de viagem lá foi a diretora pegar a encomenda. Havia uma pequena multidão na casa de Seu Olegário, com sempre acontecia quando ele voltava de viagem, formada por pessoas que iam lá pegar suas encomendas. Sr. Olegário estava de traz de uma mesa fazendo a triagem dasmercadoria, conferindo anotações e entregando cada coisa ao respectivo proprietário. Quando avistou a diretora falou para ela:
--Oh, Dona fulana, eu lembrei da bandeira que a senhora me encomendou, só não trouxe porque a senhora não informou a côr.
A PRIMEIRA GELADEIRA
A primeira geladeira da cidade de Miradouro foi a do Sr. Olegário Matta, e por muito tempo somente ele possuía um refrigerador na cidade. Na época o objeto tinha pouca utilidade, pois ninguém estava acostumado com aquilo, mas o feliz proprietário do único aparelho da cidade não cansava de segabar do fato e contar casos que justificassem o uso da geladeira. Não eram poucos os que achavam tudo aquilo um exagero, uma ostentação inútil, e que o Seu Olegário tinha aquela porcaria somente para ser diferente dos outros. E não faltavam aqueles que o provocavam nas rodinhas de conversa,alguns por gaiatice e outros por indignação mesmo. Seu Olegário estufava o peito e se punha a discorrer sobre as várias utilidades do indispensável eletrodoméstico.
--Seu Olegário, afinal para que serve essa tal de geladeira?
--Ora, tem várias utilidades, além de refrescar a água, conservar alimentos e fabricar gelo, não é que descobri mais uma serventia para o dando do troço?
--É mesmo? E qual é essa nova serventia que o senhor descobrir.
--Bom meu filho, nesse calorão que ta fazendo, eu penduro o terno esticadinho dentro da geladeira, deixo lá por umas meia hora e depois visto. Ele fica fresquinho fresquinho, e danado de confortável.
É, de fato naquela época geladeira servia para cada coisa! Pelo menos a do Seu Olegário servia.
LAJES, BUEIROS E FRUTAS
Seu Olegário era mesmo inovador. Sua casa em São Francisco, se não foi a primeira, foi uma das primeiras a ser construída com laje de cimento. Tenho dúvidas sobre qual foi a primeira, se a da Totônia Moreira, a da Manita que era próxima, a do Sr David Martins ou do Sr. Olegário. Acho que sãotodas mais ou menos da mesma época.
Por falar em Totônia, seus filhos Azarias, Jole e Fido entravam no bueiro perto da casa do Lili e iam pela manilha até os fundo do quintal do Sr. Olegário, onde a intalação terminava á beira de um pequeno córrego. Uma vez lá enchiam a camisa de laranjas, limão doce e outras frutas e retornavampelo mesmo caminho. O proprietário da casa constatava intrigado o sumiço de suas frutas apesar de seu quintal ser muito bem cercado. Certa vez o Jole ficou agarrado na manilha de tanta laranja que tinha na camisa. Passou muito aperto e teve que descartar as frutas para desencalhar. Como eleeram levados!
TROCADILHOS E DERRAME
O nome de Seu Olegário sempre rendeu alguns trocadilhos. As pessoas brincavam com ele dizendo:
--Eu faço a cova e Olegário Matta (mata do verbo matar).
Mas disparado o melhor trocadilho com o nome de Seu Olegário de que já tive noticia foi feito pelo Sr. João José Moreira, e é narrado por seu neto, Virgílio de Oliveira Moreira.
Virgilio descreve o avô como uma pessoa de poucas palavras, porém dono de um humor refinado e inteligente, e comumente brindava aos amigos e parentes com tiradas engraçadas e espirituosas. O texto transcrito abaixo está publicado na página da Família Moreira e faz parte de uma coletânea decausos engraçados e interessantes contados pelo Virgílio e outros membros dessa expressiva família franciscana.
DERRAME, NO OLEGÁRIO, MATA
Virgílio
O Senhor Olegário Matta, amigo da família Moreira, foi acometido em certa ocasião de um derrame cerebral. Meu pai, João Moreira, que chegava à fazenda, ía levando a notícia ao vovô:
- Papai, o Senhor sabe que o Olegário teve um derrame?
Vovô, que gostava muito de brincar com as palavras, viu no derrame do amigo uma esplêndida oportunidade para um trocadilho; ainda que um tanto sinistro. Aproveitando o mote, não deixou escapar a chance, e antes mesmo de interrogar meu pai sobre o estado de saúde do "derramado", o respondeucom outra pergunta:
- Você sabia que derrame, no Olegário, mata?
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