João Eduardo Ornelas
Voltando a falar sobre os tipos que freqüentavam a oficina , várias pessoas humildes moradoras do asilo de São Vicente de Paulo iam até lá pegar as sobras de madeira , gravetos e toquinhos para usarem em fogão de lenha . Pegavam também as fitas de madeira que saiam das plainas e dos raspadores usados para polir a madeira que eles chamavam de farelinho de pau , ou faísca .
Uma dessas pessoas era a Dona Rita , uma senhora ignorante e fanática religiosa . Não acreditava que o homem havia pisado na lua e até se zangava quando alguém afirmava tal absurdo . Dizia que era um desrespeito já que a lua era um mistério de Deus e como tal inacessível ao homem . Dona Rita tinha mania de doenças e nunca estava bem de saúde . Quando perguntávamos se estava bem , respondia um miorei, fazendo voz de sofrida. Então em vez de perguntar de estava bem , passamos a perguntar se tava mio, e ela dizia que tinha miorado, ou piorado conforme fosse sua condição .
Recebi de Dona Rita uma lição valiosa . Um dia estávamos como sempre enchendo sua paciência com provocações das mais diversas, a respeito da ida do homem à lua , questões religiosas e outros temas . Ela sempre entrava na nossa , ficava nervosa e discutia muito , mas nessa oportunidade não respondeu às provocações e diante de nossa insistência respondeu:
---Vou ficar calada que quem fala muito dá bom dia a cavalo .
No inicio quando ia embora dizia a meu pai :
--Obrigado Sô Arede, Deus que aumente.
--Amém, D. Pedrosa.
--Aumente o que Dona Pedrosa?
--A lenha Sô Arede.
--A lenha não D. Pedrosa, tem que aumentar minha madeira pois se aumentar a lenha eu vou à falência .
--Obrigado Sô Arede, Deus que aumente seu pau .
--Aumente minha madeira D. Pedrosa, a madeira .
MURILO
Murilo era outro morador do asilo que além de pegar lenha , de vez em quando prestava algum serviço na limpeza da oficina recebendo alguns trocados . Fazia parte da família Aredes vizinha da Dona Pedrosa. Era vigoroso , mas muito burro e parecia ter a idade mental de uma criança . Gostavamuito da gente e tomava a benção à minha mãe . Ao receber o pagamento por algum trabalho , escolhia sempre um número maior de notas . Se alguém o mandasse escolher entre 4 cédulas de um real e uma de cinco , ficava com as primeiras sem titubear . Era desbocado , falava muita besteira e gostava dechamar os outros de capeta .
O galo
--Já dá pra comprar o danado do galo ?
--Ainda falta .
--Então deixa juntar .
--Aquele minino é muito guloso . Comeu um galo sozinho e aquele bicho é remoso. Teve que ser alternado no Hospital de Miradore.
--O Murilo, vamos comer um galo .
--Eu não capeta , galo dá piriri no cu.
Aconteceu num dia em que eu saía para mais uma jornada na secretaria de saúde , e quando chego à rua , lá vem o Murilo com o balaio na mão rumo à oficina para pegar as faísca de pau . Desci apressado pois estava atrasado, mas ainda tive tempo de ouvir o Murilo soltar uma de suas pérolas :
--Lá vai o doutor de bosta .
Noutra oportunidade encontrei o Murilo no banco de espera do posto de saúde e resolvi brincar com ele . Bati em sua barriga protuberante e falei:
--Veio ver como é que está o neném ?
--Vim vê meu pinto , capeta .
As senhoras que estavam próximas ficaram rubras de vergonha e eu não fiquei atrás . Abaixei a cabeça e entrei rapidamente no escritório . Por segurança nunca mais brinquei com o Murilo naquele local .
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