sexta-feira, 23 de março de 2012

PERSONALIDADES DA OFICINA – MORADORES DO ASILO

PERSONALIDADES  DA OFICINA – MORADORES DO ASILO
 João Eduardo Ornelas
DONA RITA
Voltando a falar sobre os tipos que freqüentavam a oficina, várias pessoas  humildes moradoras do asilo de São Vicente de Paulo iam até lá pegar as sobras de madeira, gravetos e toquinhos para usarem em fogão de lenha. Pegavam também as fitas de madeira que saiam das plainas e dos raspadores usados para polir a madeira que eles chamavam de farelinho de pau, ou faísca.

 Uma dessas pessoas era a Dona Rita,  uma senhora ignorante e fanática religiosa. Não acreditava que o homem havia pisado na lua e até se zangava quando alguém afirmava tal absurdo. Dizia que era um desrespeito já que a lua era um mistério de Deus e como tal inacessível ao homem. DonaRita tinha mania de doenças e  nunca estava bem de saúde. Quando perguntávamos se estava bem, respondia um miorei, fazendo voz de sofrida. Então em vez de perguntar de estava bem, passamos a perguntar se tava mio, e ela dizia que tinha miorado, ou piorado conforme fosse sua condição.

Recebi de Dona Rita uma lição valiosa. Um dia estávamos como sempre enchendo sua paciência com provocações das mais diversas, a respeito da ida do homem à lua, questões religiosas e outros temas. Ela sempre entrava na nossa, ficava nervosa  e discutia muito, mas nessa oportunidade nãorespondeu às provocações e diante de nossa insistência respondeu:
---Vou ficar calada que quem fala muito dá bom dia a cavalo.

Nos olhamos sem graça com a carapuça e naquele dia a deixamos em paz. Eu já ouvira aquele provérbio várias vezes, mas foi naquele instante devido a forma correta e oportuna em que foi dito que entendi seu real significado. Até hoje, quando vejo alguém falando besteira, dizendo coisasindevidas ou falando mais que o necessário, lembro-me da Dona Rita e penso: esse daí ta dando bom dia a cavalo.
Isso serve para provar que nessa vida aprendemos com qualquer pessoa, não importando seu grau intelectual, raça, idade ou cor.
Obrigado, Dona Rita.

DONA PEDROSA
Bem velhinha e enrugada, porém muito esperta, brincalhona e sempre bem humorada, Dona Pedrosa era outra moradora do asilo que buscava toquinhos na oficina.. Meu pai a chamava assim (seu nome na realidade era Idalita) para provocar o Zé Pedrosa que trabalhava na oficina. Ela entrou noespírito da coisa e passou a chamar meu pai de Seu Arede, sobrenome de uma família vizinha sua lá no asilo com quem não se dava muito bem.

Dona Pedrosa vinha, pegava os toquinhos, brincava com a gente, contava histórias e ia embora. Só precisávamos vigiá-la para que não pegasse as peças destinadas aos móveis, não sei se porque enxergava pouco ou porque se fazia de besta.

No inicio quando ia embora dizia a meu pai:
--Obrigado Sô Arede, Deus que aumente.
--Amém, D. Pedrosa.
Até que meu pai resolveu perguntar:
--Aumente o que Dona Pedrosa?
--A lenha Sô Arede.
--A lenha não D. Pedrosa, tem que aumentar minha madeira pois se aumentar a lenha eu vou à falência.
Então a partir daquele dia Dona Pedrosa modificou sua oração, mas em vez de madeira dizia pau.
--Obrigado Sô Arede, Deus que aumente seu pau.
--Aumente minha madeira D. Pedrosa, a madeira.

MURILO
Murilo era outro morador do asilo que além de pegar lenha, de vez em quando prestava algum serviço na limpeza da oficina recebendo alguns trocados. Fazia parte da família Aredes vizinha da Dona Pedrosa. Era vigoroso, mas muito burro e parecia ter a idade mental de uma criança. Gostavamuito da gente e tomava a benção à minha mãe. Ao receber o pagamento por algum trabalho, escolhia sempre um número maior de notas. Se alguém o mandasse escolher entre 4 cédulas de um real e uma de cinco, ficava com as primeiras sem titubear. Era desbocado, falava muita besteira e gostava dechamar os outros de capeta.

O galo
Certa o Murilo meteu na cabeça que tinha que comer um galo. Primeiro foi no comércio do José Wagner e apreçou o bicho. Depois pediu que acumulássemos o pagamento por seus serviços até que somasse a importância necessária para comprar o tal galo.
Sempre que fazia um servicinho pra gente perguntava:
--Já dá pra comprar o danado do galo?
--Ainda falta.
--Então deixa juntar.

Até que juntou todo o dinheiro e foi buscar o galo todo sorridente. Pediu à sua irmã Cota que cozinhasse o bicho e comeu-o inteiro sozinho, sem dar sequer um pedacinho a alguém. Seu irmão mais velho, o Neca, reclamou a valer. Mas parece que foi praga, o Murilo pegou uma infecçãointestinal e teve que ser internado por mais de uma semana. Quando perguntávamos ao Neca pelo Murilo ele respondia:
--Aquele minino é muito guloso. Comeu um galo sozinho e aquele bicho é remoso. Teve que ser alternado no Hospital de Miradore.

Dias depois o Murilo voltou alguns quilos mais magro.
Nós o provocamos dizendo:
--O Murilo, vamos comer um galo.
--Eu não capeta, galo dá piriri no cu.

Doutor de Bosta
Em 1993 passei a trabalhar como secretário de saúde. O Murilo era um dos freqüentadores assíduos do posto, sempre atrás de alguma consulta ou remédio, sendo conduzido por sua irmã Cota, que além de ama seca era também seu cérebro. Quase todo dia eu chegava no posto e lá estava o Murilo sentado no banco de espera ao lado da Cota e outras senhoras. Ele me olhava atravessado e não dizia nada. Não estava entendendo, pois me via desde menino na oficina, desarrumado, sujo de tinta e verniz. De repente eu passo a chegar no posto de saúde todo arrumadinho, com sala própria e dando as cartas. Mas como eu o conhecia sabia que era questão de tempo para que saísse com algum comentário atravessado.

Aconteceu num dia em que eu saía para mais uma jornada na secretaria de saúde, e quando chego à rua, lá vem o Murilo com o balaio na mão rumo à oficina para pegar as faísca de pau. Desci apressado pois estava atrasado, mas ainda tive tempo de ouvir o Murilo soltar uma de suas pérolas:
--Lá vai o doutor de bosta.

Neném ou pinto?
Noutra oportunidade encontrei o Murilo no banco de espera do posto de saúde e resolvi brincar com ele. Bati em sua barriga protuberante e falei:
--Veio ver como é que está o neném?
Ele respondeu pegando na genitália:
--Vim vê meu pinto, capeta.
As senhoras que estavam próximas ficaram rubras de vergonha e eu não fiquei atrás. Abaixei a cabeça e entrei rapidamente no escritório. Por segurança nunca mais brinquei com o Murilo naquele local.

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