PERSONALIDADES DA OFICINA
João Eduardo Ornelas
A homenagem a meu pai despertou-me as lembranças para o ambiente da oficina e das pessoas que por lá passaram. Quando nos mudamos para São Francisco eu estava com 5 anos de idade e fomos morar na casa da esquina da Rua Azarias Varela, em frente à Prefeitura onde depois passou aser do Manoel Pedrosa. A casa foi partida ao meio com uma divisória de madeira formando assim duas residências . Na parte de trás morava o sócio de meu pai Otávio com sua família , e nós ocupávamos a parte da frente .
CUMPÁ LINCA
Tratava-se de um sapateiro chamado Lincanor que foi contratado para trabalhar com estofamento . Acabou permanecendo por um bom tempo e aprendendo algumas funções além de suas habilidades com o couro e as tachas . Era casado e tornou-se compadre de meus pais , que apadrinharam sua filha caçula , a Nininha. Origina-se daí o tratamento , Cumpá Linca, variação pejorativa de Compadre Lincanor. E ele não deixava por menos e chamava meu pai de Cumpá Juca.
A disposição e coragem da Comadre Catarina era tanta que quando tinha queima na Casa Silveira de Miradouro , ela ia à pé fazer compras . Voltava de ônibus com as mercadorias mas ia à pé para economizar . E quando retornava contava detalhadamente suas aventuras .
Uma de suas peripécias no queima da Casa Silveira foi de lascar . Naquela época a Comadre Catarina ainda passava roupa com o ferro a brasa , o famoso marchambombe, e seu sonho era adquirir um ferro elétrico . Na promoção daquele ano ela conseguiu realizar seu intento , e de forma dupla .Após se capitalizar com a colheita do café e tão logo passou o carro de propaganda anunciando a promoção , fez os preparativos e sebo nas canelas para Miradouro . Retornou eufórica e veio contar as novidades para a comadre Zilda, minha mãe :
--Pois é comadre , eu agora tô sastifeita, consegui comprar o meu ferro . E ocê acredita que comprei dois ?
--Dois comadre , mas pra que ?
--Ah, cumade, o moço me mostrou o ferro elétio e me explicou tudinho cumé que funciona, uma gracinha só cê veno. Levinho que só ele . Aí eu falei “vô levá”. Aí despois ele veio com um tal de ferro omátio, mais bonito ainda que o elétio. Fiquei na dúvida , oiava pra um , oiava pra outro , seguravaum , segurava o outro e não decidia. Tava chegano a hora do ôinbu e eu arresorví: “vou levar os dois ”. O moço inté caiu o quexo coitado .
O compadre Lincanor era caçador. Caçava tatu , paca , seriema e outros bichos . A comadre Catarina era exímia nos preparos desses animais e de vez em quando éramos convidados para o almoço onde o prato principal era algum exemplar da fauna franciscana . Minha mãe ficava cismada e não comia carne . Quando o Cumpá Linca estava trabalhando e ouvia o canto de uma seriema , fica descontrolado de vontade de pegar a bicha . Ficava ofegante , ou “fadigado” com ele dizia. Aí meu pai falava: “o cumpá, concentra no serviço e deixa a bichinha cantar que tá bonito . Outro hora você pega ela ”.
CANORINHO
Na época do Lincanor entrou para trabalhar na oficina o Juscélio Amaral, filho da Dona Haydê, que recebeu o apelido de Canorinho, que seria o diminutivo de Lincanor. Até hoje quando meu pai o vê , chama-o pelo antigo apelido . O que mais me marcou de sua passagem pela oficina foi um cartaz que ele confeccionou e afixou na porta da seção de verniz com os dizeres : É PROIBIDA A ENTRADA DE SAPOS . Eu não entendi nada e ficava pensando porque um sapo teria interesse de entrar ali . E também não entendia se caso um sapo viesse, como ele leria o aviso, pois além de não saber ler o cartaz estava alto , fora do alcance de sua vista . Na minha cabeça de criança , pensava somente no animal sapo . O que eu não sabia era que eu também era um sapo que ficava sempre por ali sapiando e atrapalhando o serviço .
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