sexta-feira, 23 de março de 2012

PERSONALIDADES DA OFICINA

PERSONALIDADES DA OFICINA

João Eduardo Ornelas

A homenagem a meu pai despertou-me as lembranças para o ambiente da oficina e das pessoas que por lá passaram. Quando nos mudamos para São Francisco eu estava com 5 anos de idade e fomos morar na casa da esquina da Rua Azarias Varela, em frente à Prefeitura onde depois passou aser do Manoel Pedrosa. A casa foi partida ao meio com uma divisória de madeira formando assim duas residências. Na parte de trás morava o sócio de meu pai Otávio com sua família, e nós ocupávamos a parte da frente.
Pois bem, nessa casa, onde é o cômodo da venda funcionou uma seção de montagem e verniz da fábrica de móveis. A oficina era no antigo galpão do Sr. Valdir Carvalho próximo à cadeinha antiga. Guardo somente vagas lembranças do local, mas lembro-me bem da seção de verniz e data daíminha lembrança dos tipos que trabalharam com meu pai.

CUMPÁ LINCA

Tratava-se de um sapateiro chamado Lincanor que foi contratado para trabalhar com estofamento. Acabou permanecendo por um bom tempo e aprendendo algumas funções além de suas habilidades com o couro e as tachas. Era casado e tornou-se compadre de meus pais, que apadrinharam suafilha caçula, a Nininha. Origina-se daí o tratamento, Cumpá Linca, variação pejorativa de Compadre Lincanor. E ele não deixava por menos e chamava meu pai de Cumpá Juca.
 Um caso à parte mas digno de relato era sua esposa, a Comadre Catarina, uma mulher enorme e que trabalhava feito um burro. Era como dizia-se rancona e encarava serviço de roça, colhia café, carregava sacos cheios, além de cuidar da casa e aventurar-se na costura numa máquina tocada à mão. Comprava aquelas peças de pano estampado e fazia roupa igual para toda família. Era de uma disposição incrível. Extrovertida e engraçada, falava alto e com muitos erros de português. Uma pessoa original, desinibida e pura. Ela e minha mãe tornaram-se grandes amigas.
A disposição e coragem da Comadre Catarina era tanta que quando tinha queima na Casa Silveira de Miradouro, ela ia à pé fazer compras. Voltava de ônibus com as mercadorias mas ia à pé para economizar. E quando retornava contava detalhadamente suas aventuras.
 Uma de suas peripécias no queima da Casa Silveira foi de lascar. Naquela época a Comadre Catarina ainda passava roupa com o ferro a brasa, o famoso marchambombe, e seu sonho era adquirir um ferro elétrico. Na promoção daquele ano ela conseguiu realizar seu intento, e de forma dupla.Após se capitalizar com a colheita do café e tão logo passou o carro de propaganda anunciando a promoção, fez os preparativos e sebo nas canelas para Miradouro. Retornou eufórica e veio contar as novidades para a comadre Zilda, minha mãe:
--Pois é comadre, eu agora tô sastifeita, consegui comprar o meu ferro. E ocê acredita que comprei dois?
--Dois comadre, mas pra que?
--Ah, cumade, o moço me mostrou o ferro elétio e me explicou tudinho cumé que funciona, uma gracinha só cê veno. Levinho que só ele. Aí eu falei “vô levá”. Aí despois ele veio com um tal de ferro omátio, mais bonito ainda que o elétio. Fiquei na dúvida, oiava pra um, oiava pra outro, seguravaum, segurava o outro e não decidia. Tava chegano a hora do ôinbu e eu arresorví: “vou levar os dois”. O moço inté caiu o quexo coitado.
 Assim a comadre Catarina comprou de uma só vez um ferro elétrico e um automático. Para quem só conhecia ferro à brasa foi uma festa. Outro acontecimento foi quando ela adquiriu o primeiro fogão a gás. Acostumada com fogão à lenha, na hora de apagar o fogo, assoprava com a boca e deixava o gás saindo. Somente por obra de Deus não aconteceu um acidente.
 O compadre Lincanor era caçador. Caçava tatu, paca, seriema e outros bichos. A comadre Catarina era exímia nos preparos desses animais e de vez em quando éramos convidados para o almoço onde o prato principal era algum exemplar da fauna franciscana. Minha mãe ficava cismada e nãocomia carne. Quando o Cumpá Linca estava trabalhando e ouvia o canto de uma seriema, fica descontrolado de vontade de pegar a bicha.  Ficava ofegante, ou “fadigado” com ele dizia. Aí meu pai falava: “o cumpá, concentra no serviço e deixa a bichinha cantar que tá bonito. Outro hora você pegaela”.
 Outra brincadeira que fazim com o nome do Lincanor que ele não gostava muito era perguntar se o Linca veio. Só que as pessaos perguntavam assim: eu lhe incavei?
 Depois de algum tempo Lincanor mudou-se com a família para Itaperuna e pouco depois separou-se da Catarina. Essa por sua vez jamais perdeu o contato com minha mãe. Correspondiam-se por cartas e sempre nos visitava. O Lincanor nunca mais vimos.
  

CANORINHO

 Na época do Lincanor entrou para trabalhar na oficina o Juscélio Amaral, filho da Dona Haydê,  que recebeu o apelido de Canorinho, que seria o diminutivo de Lincanor. Até hoje quando meu pai o vê, chama-o pelo antigo apelido. O que mais me marcou de sua passagem pela oficina foi umcartaz que ele confeccionou e afixou na porta da seção de verniz com os dizeres: É PROIBIDA A ENTRADA DE SAPOS. Eu não entendi nada e ficava pensando porque um sapo teria interesse de entrar ali. E também não entendia se caso um sapo viesse, como ele leria o aviso, pois além de não saberler o cartaz estava alto, fora do alcance de sua vista. Na minha cabeça de criança, pensava somente no animal sapo.  O  que eu não sabia era que eu também era um sapo que ficava sempre por ali sapiando e  atrapalhando o serviço.
 Depois eu conto sobre outros tipos da oficina, prometo.

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