SEMANA SANTA
João Eduardo Ornelas
Nesta época do ano o povo franciscano mostra toda sua devoção católica. Do domingo de ramos ao domingo da páscoa, praticamente toda a cidade se mobiliza em torno das solenidades religiosas.
Na quarta-feira a procissão do encontro é muito bonita, com as mulheres saindo da Rua do Pinheiro (Azarias Varela) com a imagem de Nossa Senhora das Dores, e os homens saindo da Rua Vai e Volta (Pe. Joaquim Cardoso) com a imagem do Senhor dos Passos que se encontram na praça onde se realiza a pregação. Curiosamente a imagem de Nossa Senhora, aquela que usa peruca feita com os cabelos do Julio do Chiquinho Patrocínio, é o dobro do tamanho da imagem de Jesus, portanto muito mais pesada. E justamente ela é transportada pelas mulheres, coitadas. Vale como penitência.
A solenidade mais bonita e comovente da Semana Santa acontece na sexta-feira, a Paixão e Morte de Cristo, seguida do descimento da cruz e culminando com a procissão de Senhor Morto. Participei de várias solenidades da sexta-feira da Paixão. Inicialmente os participantes serviam apenas de figurantes, permanecendo estáticos no palco diante da cena de Jesus crucificado. Eu fazia às vezes de João Evangelista, o discípulo mais amado por Jesus e que cuidou de Maria a partir de sua crucificação. Ficávamos de pé e imóveis por pelo menos duas horas, que era o tempo mínimo de duração da pregação que o Zé Maria fazia. Todos os anos ele prometia brevidade, mas nunca cumpria.
Os soldados ficavam perfilados nas laterais do palco fazendo cara de mal. Este aliás era o posto mais cobiçado pelos jovens e adolescentes da cidade, sendo preciso selecionar com antecedência. Como não dava para aproveitar todo mundo, muitos se entristeciam por não terem a oportunidade. Já o posto de João Evangelista, ninguém queria. Os soldados ficavam encarregados de tocar a matraca durante a procissão. Sempre sonhei em tocar a matraca, mas quando pedi ao Zé Maria ele recusou dizendo: “onde já se viu o João Evangelista tocar a matraca? Toma conta da Nossa Senhora que é sua função”.
Para aqueles que devem estar se perguntando porque não me candidatava ao cargo de soldado romano, pela primeira vez confesso que me achava gordo para vestir os trajes sumários que os figurantes usavam. Até que me foi oferecida uma vaga, mas eu tímido, recusei. Restava-me então o papel do Evangelista, vestido com uma batina do Padre Inácio ficava postado ao lado da Nossa Senhora que era a Galdina do Demétrio. Depois seguíamos na procissão ouvindo os cânticos puxados pela Dona Sérvula Borges, a Leila e Cia Ltda. No acompanhamento os instrumentistas Elton Ricardo, Tião Augusto, Zé Maria do Neca e outros. Mais à frente seguia os soldados, tocando matraca e fazendo gracinhas. Eu morria de inveja.
A partir do ano de 1985 a encenação passou a ser ao vivo transformando-se numa peça teatral. Foi um sucesso magnífico, que emocionou toda a assistência. Passei então a ser o Caifás, o sumo sacerdote que tomou parte no julgamento de Jesus. O Cristo foi o Tico do Jair Biciate, que ficou feio de assustar com peruca e barba postiça. Decidiram também fazer a procissão do encontro ao vivo, com o Cristo (Tico) arrastando a cruz pela cidade. Como na Bíblia há um personagem chamado Simão Cirineu que ajuda o Cristo a carregar sua cruz, sobrou para mim. A danada da cruz era de Peroba Rosa, muito pesada e o ombro doía a valer. Somente depois da procissão descobrimos na sacristia uma cruz idêntica, porém de cedro, uma pluma se comparando com a outra. Assim na mesma semana vivi dois personagens bíblicos, Cirineu na quarta e Caifás na sexta.
Depois de vários anos fazendo o Caifás, passei a representar Pôncio Pilatos, aquele que lava as mãos. O cristo então já era o Laci, filho do Totônio do Doda. Foi um custo acostumar representar rir, porque o Laci fechava os olhos e fazia caretas de todo tipo ao falar o seu texto.
Permaneci mais uns três anos lavando as mãos até que passei a peteca para o Márcio da Piu. Hoje não sei mais quem são os atores que representam na Semana Santa. Se tiver oportunidade irei assistir.
AS SANTAS MULHERES (UM POUCO DE HUMOR NA SEMANA SANTA)
Na sexta-feira da Paixão havia a participação de várias senhoras que se vestiam de preto e acompanhavam o sepultamento de Jesus. Eram as Santas Mulheres, seguidoras do Cristo que choravam a sua morte. Entre elas estava Verônica, aquela que enxugou o suor de Jesus, papel representado pela Leila que cantava em latim.
Pois bem, o José Maria sempre teve o cuidado de explicar a todos os personagens que seriam representados e a participação de cada um dentro da historia bíblica, não somente para que o figurante soubesse o que estaria simbolizando, como saberia explicar para aqueles que perguntassem a respeito.
Ele estava então explicando para as senhoras que seriam as Santas Mulheres, dizendo que elas eram bondosas, caridosas, virgens e que seguiam os ensinamentos do Mestre, etc. Nesse momento, a saudosa Dona Fia que fazia parte do grupo, pessoa muito engraçada faz o seguinte comentário:
--Ô Zé Maria, aqui tem cada virgem que óh...(e faz um gesto mostrando o tamanho de um buraco juntando os indicadores e polegares das duas mãos) e óh...(e faz um outro gesto como se estivesse enfiando um braço inteiro no tal buraco).
O riso foi tanto que a reunião acabou por ali mesmo.
Tico de Cristo, João Eduardo de Caifás, Maurício e Rozenil de Soldados romanos.
Lacy, no papel de Cristo sendo pregado na cruz
Na Procissão do encontro o Tico de Jesus, e João Eduardo de Simão Cirineu.
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