CAMINHONEIROS FRANCISCANOS.
João Eduardo Ornelas
Pode perguntar a qualquer um de minha geração que viveu sua infância em São Chico que certamente todos se lembram dos caminhões que circulavam na cidade, e até com riqueza de detalhes de todos eles. Evidentemente que, sendo garotos com imaginação fértil, vivendo num lugar de pouco movimento chamaria a atenção os enormes caminhões que iam buscar e levar gado na cidade. Todos eles exageradamente enfeitados com calotas e pára-choques reluzentes, pinduricaios nos pára-brisas, luzinhas de todas as cores e lameiros decorados com paisagens e frases criativas. Sem falar na buzina a ar executada com maestria acompanhadas de repiques no acelerador na hora das mudanças de marchas.
Os caminhões de gado costumavam vir em comboio de três, quatro e às vezes até seis. O comércio de gado era intenso na cidade comandado pelos pecuaristas Zé Pedrosa, Pedro Nicolau, Joaquim Cidó, Toninho do Baldino, Armando do Quinha, Rominho Beviláqua e outros. Sempre que tinha um desfile desses a meninada babava, e no dia seguinte estavam todos com seus carrinhos de plástico, madeira ou lata imitando o som dos motores e os toques das buzinas.
Outro fato que chamava atenção eram os caminhoneiros da cidade, sendo o mais antigo o Edinho do Chiquitério, casado com a Maria do Irineu que passou então a responder pelo sobrenome de casada: Maria do Edinho. Cresci vendo o Edinho chegar com seu Mercedes Benz, (hora azul, hora verde, hora vermelho, mas sempre Mercedes Benz) com a carga muito alta rasgando a faixa da Casa Nogueira, irritando o proprietário da loja, o Jesus Nogueira. Fazia o contorno na praça e embalava o caminhão para subir o morro do Sr. Leônidas. Vinha embalando e passando as marchas, e uma vez no morro reduzia todas as marchas novamente virando a esquina pelas pontas, no limite da força do motor. Era um show que a cidade apreciava e vinham todos para janela e portas das vendas para assistir. As paredes tremiam quando o caminhão passava. Várias vezes, outros caminhões que foram à cidade para entregas ficavam encravados no morro do Sr. Leônidas e custavam a subir. O Edinho não, já sabia a manha e subia na primeira tentativa. Às vezes penso que ele gostava daquele momento de celebridade, e mesmo que o caminhão não estivesse tão pesado fazia aquele espetáculo para não decepcionar a platéia, ou seja, jogava pra torcida.
Houve uma época em que o Lili tinha vários caminhões, cinco se bem me lembro. Às vezes coincidia que eles chegavam todos no mesmo dia e a praça se enchia de caminhões, sempre com as cargas muito altas. Detalhe: todos da marca Mercedes Benz. Todo esse movimento de caminhões com suas cargas altas na cidade era um tormento na vida do Jesus Nogueira, pois tão logo ele colocava uma faixa publicitária de sua loja, vinha um caminhão e arrebentava. Costumava recolocar a faixa e logo em seguida vinha outro caminhão e destruía o serviço.
Outro que foi caminhoneiro por um período foi o Fernando do Côco. Tinha um Mercedes amarelo, muito bonito. Mas o único caminhoneiro franciscano de corpo e alma é o Edinho, que ainda hoje, mesmo aposentado não deixa a profissão.
COMIDA DE CAMINHONEIRO.O Edinho é caminhoneiro desde os 18 anos de idade. Naquela época, e por muito tempo levantava pela manhã e comia uma dúzia de ovos com feijão e farinha que ele mesmo preparava no fogareiro que carregava. Com a prática foi se especializando na cozinha e nos dotes culinários bem ao estilo da estrada com as limitações e criatividades próprias do meio. Com o tempo os caminhoneiros passaram a carregar uma verdadeira cozinha no gavetão ao lado da carroceria. O momento de parar para preparar o rancho é um prazer não só pela comida, mas pela descontração do encontro com os colegas que trocam receitas, temperos e dicas, além de por a prosa em dia. O almoço quase sempre é acompanhado com o cochilo de alguns minutos na rede esticada entre um caminhão e outro. Nem sempre isso é possível, pois a carga é de horário e nesses casos nem dá tempo de preparar o almoço. Mas aqueles profissionais que estão mais tranqüilos não carregam esse tipo de carga e não abrem mão da tradição de preparar o próprio almoço. O Edinho joga nesse time.
Uma vez aconteceu em São Chico as Santas Missões, com a presença de um grande número de padres, os missionários redentoristas, que permaneceram na paróquia por muitos dias rezando missas, batizando, fazendo procissões, casamentos, etc.
Houve uma missa celebrada numa barraca de lona improvisada onde hoje é a igreja do Pinheiro que seria dedicada aos motoristas que deveriam levar seus carros para serem abençoados. O Edinho levou seu caminhão e estacionou bem em frente à barraca. Coube ao Padre Toninho, um baiano simpático que já havia conquistado toda a cidade com se jeito brincalhão fazer a celebração. Num dado momento do sermão o padre falava que não havia lugar melhor no mundo que o próprio lar. Para exemplificar, perguntou quem era o dono do caminhão que estava ali estacionado, e como as pessoas apontaram para o Edinho, falou pra ele com seu sotaque carregado de nordestino:--Meu amigo, você viaja pelo Brasil inteiro, não é mesmo?
E como o Edinho confirmou com a cabeça perguntou:--E onde é que você come a comidinha mais gostosa, feita com mais capricho?
O Edinho que não estava prestando atenção no sermão respondeu com todo orgulho:--É ali mesmo seu padre, na gaveta do meu caminhão, respondeu mostrando para o lado do Mercedes azul.
Diante da gafe, os presentes caíram na gargalhada, e o Padre falou:--Óxente, agora lascou de vez. E quem é o dono do outro caminhão?
Era o Toninho do Dé que na época era também caminhoneiro e viajava junto com o Edinho.
--E você, meu amigo, onde é que come a comida mais gostosa? Não vai me dizer que é na gaveta dele?
--Não seu padre, é na minha casa, feita com todo carinho pela minha mulher.
--Óxente, esse sim respondeu direitinho.
O Edinho ficou todo sem graça, e quando chegou em casa para almoçar, a Maria furiosa não deixou ele por o pé na cozinha.--Eh, cachorro, vai lá comer na gaveta do caminhão que aqui você não come.
Até hoje o pessoal tira onda com esse fato.
O primeiro caminhão movido a díesel adquirido pelo Chiquitério, pai do Edinho.Um Mercedes 57. Nessa época Edinho e seu pai viajavam para o Rio de Janeiro levando verduras (repolho, tomate, jiló, etc) produzidos no Barroso. Saiam às 5 da tarde e chegavam no Rio 5 da manhã.Na foto estão o Hélio, irmão do Edinho,O Edinho e o Antonio do João Nequinha.
Mercedes Benz verde, ano 1968
Edinho, Maria e o filho Marcelo na porta de sua casa em São Chico
Balsa no rio São Francisco fazendo a travessia de Sergipe para Alagoas. Inicio dos anos 70 e na época não havia ponte. O caminhão do Edinho é o último da esquerda.
Edinho com os colegas caminhoneiros de Carangola. Foto tirada em Milagres-BA, inicio da década de 70
Padre Toninho, baiano arretado celebrando a missa dos motoristas na tenda montada no Pinheiro na ocasião das Missões Redentoristas.
Á esquerda, Edinho e sua querida gaveta, e à direita Maria se rende aos encantos do cozinheiro da estrada e sua gaveta-cozinha.
Sobrou pra Maria. Se não podes com o inimigo, una-se a ele. Observem que essa gaveta é bem mais moderna, toda revestida em fórmica. Fica a pergunta: será que foi exigência da Maria?
Parabéns ao Edinho por toda a dedicação à profissão, muitas vezes inglória de caminhoneiro. Parabéns por ter criado uma bela família com o trabalho duro e honrado.É legal saber que durante muitos anos, um Mercedes Benz cortou as estradas (e rios) do Brasil levando nas placas o nome de nossa querida São Francisco do Glória. E embora hoje seja um Volkswagem, e a placa seja de João Monlevade, o coração com toda certeza continua sendo franciscano.
Abraços dos conterrâneos.
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