sexta-feira, 23 de março de 2012

CACHAÇA FRANCISCANA

CACHAÇA
 João Eduardo Ornelas
A cachaça sempre esteve presente na vida do franciscano, e tirando os bebuns chatos, o consumo de pinga é um hábito difundido e socialmente aceito na cidade. Sendo chamada por vários nomes engraçados (marvada, corozena, água que gato não bebe, branquinha, calibrina, grau, etc) o certo é que o produto é largamente consumido não somente nos botecos, mas nas residências antes das refeições, pra esquentar no frio, refrescar no calor, relaxar as tensões, etc. Esse costume antigo tem gerado muitos fatos engraçados, e infelizmente, alguns trágicos.
 Algumas pingas franciscanas fizeram fama que ultrapassaram as fronteiras do município, como é o caso da cachaça Bicuiba que foi produzida pelo Cresson Millem, e a Cristalina produzida pelo Zé Miano. Outra cachaça que ficou famosa apesar de não ter nome e muito menos rótulo é a do Fernando Pinto. Quando acontecia alguma briga de bêbados comentava-se em tom de galhofa que a culpa era do Fernando Pinto. O coitado apenas fabricava a cachaça honestamente e não merecia ser culpado pela conduta exagerada dos consumidores. Mas o povão quando pega no pe, já viram né?
 Existe na cidade alguns fabricantes que produzem uma cachaça digna de elogio, produto de exportação. São os casos do Adalberto Moreira lá na Vargem Alegre, o Magela lá na fazenda São José, e o Paulo Cirelle, também no Vargem Alegre.
 Por falar em Paulo Cirelle que, aliás, parou de produzir sua deliciosa pinga, infelizmente, quero narrar dois fatos relacionados  a ele e a seu produto. Um dia desses estava num boteco e o proprietário do estabelecimento ofereceu-me algo irrecusável: a derradeira cachaça produzida pelo Paulo a qual  ele havia adquirido o restante do estoque. Como gosto de ter uma da boa em casa para os amigos pinguços que me visitam, decidi levar alguns litros. A pinga estava numa bombona plástica de cem litros e eu fiquei pensando como é que o cara ia tirar ela lá de dentro. Ele então pegou uma mangueira preta, dessas de laje, toda suja, bateu no chão para tirar a poeira e limpou (?) com um pano ensebado de balcão. Enfiou uma ponta da mangueira na boca do galão e quando eu me indaguei mentalmente se ele iria chupar do outro lado, como que adivinhasse meus pensamentos ele disse:
--Cê tá pensano que eu vou meter o bocão na mangueira, né? Mas eu não faço isso não que é nojento. Fique olhando como é que eu faço.
 Dito isso ele meteu o bocão não na mangueira, mas na boca da bombona no espaço entre ela e a mangueira, fez pressão com as mãos e soprou com força até o líquido começar a cair na garrafa. Ele então olhou pra mim meio zonzo, sem fôlego de tanto soprar,  enxugando a boca com as mãos e com ar de vantajoso falou:
--Tá vendo como é que eu faço?
 Mal contive o riso e pensei se não seria mais higiênico sugar direto na mangueira. Tudo bem, já que cachaça é parente de álcool que é um esterilizante muito usado, então ela  com certeza  deve ser auto-esterilizável. Além do mais quem vai beber serão os amigos cachaceiros que me visitarão, e como eu não vou contar nada pra eles, tá tudo certo.
 Outra do Paulo Cirelle diz respeito a uma promessa (ainda) não cumprida. É que ele tratou de me presentear com um litro de cachaça de jabuticaba e até ontem não cumpriu a promessa. Talvez a sua filha Paula que se tornou leitora do blog possa fazer o favor de sutilmente refrescar a memória do papai.
 Cachaça no côco.
 O Zé da Fia (atualmente Zé da Vera) no dia do seu casamento colocou uma cachaça no côco e enterrou no quintal. Uns quatro anos depois desenterrou a pinga, colocou na garrafa e levou para a oficina. Quando o Chico Costa e o Wagner de Paula, que eram vizinhos, chegaram do trabalho resolveram experimentar. E gostaram tanto que de gole em gole tomaram tudinho. A Antônia, esposa do Chico preparou um prato de torresmo e os dois ficaram bebendo em cima do banco (banca de serviço) do Zé enquanto ele trabalhava. Contavam caso, davam gargalhadas e entornavam a marvada. Tivemos que pedir licença para fechar a oficina. Acho que se tivesse outro litro eles teriam tomado.
 Turistas cariocas
 O carioca, principalmente o pessoal da baixada é doido com produto de Minas. Queijo, mel, cachaça, qualquer coisa daqui é com ele mesmo. Meu pai costumava dizer que até merda de Minas o carioca compra e gosta. Há algum anos era comum times de futebol da baixada virem jogar em São Chico. Muitas pessoas velhacas, sabendo disso reservavam algum produto da terra para vender aos turistas. Vinha o Misto lá do Bananal com seu queijo, vinha outro roceiro com a rapadura, a goiabada cascão, o Paulo Bento vendendo colerinho (eles chamavam de papa-arroz), etc. Até pardal os cariocas compravam do Paulo Bento pensando que fosse trinca-ferro.
 De todos os espertalhões o Sr. Mário Ferreira era o que mais faturava. Além de hospedar no Hotel e servir almoço no restaurante, vendia muita cerveja e cachaça. Mas seu negócio  mais lucrativo era vender a cachaça Cristalina envelhecida enterrada no chão. Ele apresentava a garrafa com o rótulo sujo e com terra seca em torno da tampa como se fosse um selo de autenticidade. Os cariocas compravam de montão, mas nem faziam idéia de que as garrafas haviam sido cuidadosamente barreadas durante a semana para adquirirem aquele aspecto. Se fossem abertas e verificadas por alguém com um mínimo de conhecimento do artigo, seria constatado que ali estava uma pinga cheirando a bagaço de cana de tão nova que era. O curioso é que eles levavam e gostavam, a ponto de indicar para outras pessoas.
 O pessoal chegava e perguntava:
--É aqui que tem aquela cachaça envelhecida no solo?
--É aqui mesmo, repondia o Sr. Mário.
 Outros casos de cachaça nos conta o Alexandre da Ruth. Um deles envolvendo o Carias, que era xingado de Cagão do Bebé, apelido que o deixava enfurecido. Ele tinha ponto de apoio lá no Italiano cuja esposa, Dona Maria do Carmo era chamada pelo Arlec de Tia Cacalo. A outra história é com a Niversina, empregada da Dona Ruth de longa data, a mãe preta do Alexandre que morre de amores por ele e é responsável pelo apelido de Arlec.


 A BOA
(Lembrança do Caria )
Alexandre Abreu
             Eu vivia na casa  da Tia Cacalo onde era muito divertido. Apesar do trabalho que a molecada dava, a tia não reclamava, e dizia:
---È melhor assim, aqui no fundo do meu  quintal, assim posso ver onde estão meus meninos”.
 Nossa principal brincadeira era jogar bola no beco e uma pessoa que ficava sempre ali depois da Maria Carrinha era o véio Carias, o Zacarias.  Ele ficava de pé, se cansava, escorava na parede depois assentava, sempre esperando o almoço, o jantar,  o café da tarde, etc.
             A bola batia nele e isto era bom, pois assim ela não ia para o córrego e nem para a rua dependendo da posição em que  ele  estivesse. O ideal seria  dois Carias, um de cada lado para cercar a bola.
             O pessoal o chamava por um apelido e  ele ficava bravo  A Tia falava:
-- Deixa o coitado em paz.
 Começava já perto do asilo onde ele morava, continuava na marcenaria do Juquita, na obra da casa do Fabinho, no Boteco do Evandro até terminar na Barbearia do Miguel ou no Mercado do Walter. E ele  adentrava o Beco gritando:
--Mato tamém, matar e morrer, para mim,  é mesma coisa tamém.
Eu só descobri o que ele dizia depois da tradução que os meninos da tia fizeram.
Mas não é isso que vem ao causo, pois a Tia as terças feiras ia a novena da Sagrada Face e deixava o prato do Caria pronto para que um dos meninos entregasse. E o almoço era sempre acompanhado de uma dose de cachaça, o que não faltava na casa do tio.
O filho mais novo da tia que cresceu vendo o Caria por  ali e tinha por ele uma afeição especial, como a um irmão mais velho.  Um dia ele ficou encarregado de entregar o prato do velho, e na hora da cachaça  pegou um garrafão  de cinco litros, fechado com um sabugo, de uma cachaça que Tio Italiano guardava só para amigos muito especiais. Ele havia recebido a preciosidade de presente de um compadre que morava lá  pelas bandas dos Queiroiz..Era uma cachaça especial destilada com um fubá de milho novo, cultivado sem agrotóxico ou fertilizante químicos, lá nas montanhas verdejantes, frias e quase inacessíveis dos Queirozes.   Fubá moído em moinho d’agua, ou seja, uma cachaça  ecologicamente correta exceto pelo o efeito de seu consumo em excesso. A pinga apresentava auréola, forte cheiro de cana e viscosidade características de um excelente produto, tendo passado inclusive por envelhecimento de quase oito anos. Chegaria a nota dez em qualquer desses concursos de cachaça atuais, era comparada a  um Blended(se é que assim que se  escreve).
--Todo mundo tem que tomar dessa cachaça, não só algumas pessoas, ainda mais o Caria que sempre esteve aqui, ele merece uma cachaça de boa qualidade – Pensava o caçula.
Assim ele praticamente enchia o caneco para o Carias , que tomava tudo em dois goles, para depois subir de volta pra casa xingando mais do que antes. 
O menino  notava que sempre que colocava a cachaça para o velho, este ficava nervoso, agitado.
--deve ser ansiedade de vontade de tomar, pensava o caçula.
O Caria tomava, ficava mais nervoso e saía xingando o dobro.  Quando era algum dos outros filhos ou a tia Cacalo que o servia, e  colocava da outra cachaça ele não apresentava nenhum comportamento estranho e subia calmo para casa.
Certo dia, o Caria não agüentou e falou:
-- Aquele seu menino mais novo toda vez que a senhora não tá aqui, ele me arranja uma cachaça diferente  dum garrafão tapado com sabuco, avisa para ele que a  aquela não é minha. A minha é  aquela ali, a  boa.
 E  indicava  insistentemente para o rótulo da famosa Cristalina.
 Lembrei também quando fui a Pedra Azul e de lá levei até Belo Horizonte um litro da cachaça Gameleira que segundo dizem é uma das melhores do norte de Minas. Guardei com muito cuidado entre as roupas para não quebrar a garrafa, e  ela ficou comigo  em BH até um dia em que eu fosse até São Chico, depois de algum tempo levei para a Niversina.
E ela um dia  confessou:
--Arlec, você não fica brabo não, sabe aquela cachaça que ocê trouxe para mim, eu joguei fora. Ela era meio amarga, a que eu gosto mesmo e é aquela dali da venda do Barrosinho, aquela sim é boa.’   
Salvo engano o Barrozinho comercializava a famosa cachaça do Fernando Pinto.
Conclusão: o franciscano sabe apreciar o produto da terra. Pelo menos quando o assunto é cachaça da boa.         

Nenhum comentário:

Postar um comentário