sexta-feira, 23 de março de 2012

CARROS DE FAMILIA

Os Carros da Família.

João Eduardo Ornelas

Lembro-me de todos os carros que meu pai possuiu, do primeiro ao atual. E praticamente todos marcaram de alguma forma, alguns mais que outros. Minha família, principalmente meu pai, seguem à risca aquela máxima de que “brasileiro é louco por carros”, e em que o veículo é tratado como membro da família. E às vezes tinha até nome, como verão mais à frente.

O primeiro foi um Dodge 51, um carro de quatro portas como quase  todos  daquela época. Era de duas cores, verde-claro na parte de baixo, e verde-escuro na parte de cima (ou vice-versa). Meu pai aprendeu a dirigir nele, e pelos casos que conta, a sorte de principiante o ajudou demais nesse período. A ele e a nós que andávamos juntos inocentemente. A lembrança mais marcante é da cidade de Petrópolis onde morávamos, no distrito de Correias quando o carro saiu de lado num desnível do terreno quase nos matando de susto. O carro foi adquirido ainda quando morávamos em Miradouro, acompanho-nos no tempo de em que moramos em Petrópolis e ficou muitos meses no quintal da casa da vovó em Ervália quando lá permanecemos um período enquanto meu pai seguia trabalhando no Rio de Janeiro. E quando nos mudamos para São Chico, o carro veio junto.

à esquerda um Dodge 54 duas portas. Apesar de não ser o 1951 quatro portas, é bastante parecido. À direita o verdadeiro Dodge 51

O segundo carro foi um tal de Stand Vanguard também ano 1951. O carro era inglês e tinha uma adaptação para transferir o volante para o lado direito, ou melhor, o volante era originalmente do lado direito com opção para o esquerdo a fim de atender às exportações. Era cinza, muito feio e mãe o chamava de tatu. Estava em bom estado de conservação, o único problema era o freio que não funcionava direito e não se encontrava peças no mercado para reposição. Salvo engano foi adquirido no Rio pelo João Bosco irmão de minha mãe. Depois passou para meu tio por parte de pai, o João Paulo, e por fim para o meu pai. Nesses períodos em que foi dos tios, ficava mais conosco que com eles, motivo pelo qual o Vanguard fez parte de nossas vidas por muitos anos em que o usávamos junto com outro carro que era nosso. Entrou nas nossas vidas ainda quando estávamos em Ervália.
Esse Vanguard da foto é um modelo perua. O nosso era um pouco diferente, uma espécie de Sedan. Havia essa tampa da roda traseira que era opcional, podia ser usada ou não. Nós não usávamos pois ficava uma marmota.

Esse é o nosso Vanguard. Na primeira foto tirada no belvedere em Bicuiba com minha irmâ Luciana no para-choque. À direita eu sentado no capô do carro ao lado da então namorada de meu tio João Paulo, perto da ponte dos Pedros.
Quando nos mudamos para São Francisco o Dodge foi trocado por um caminhão Ford ano 46, que na minha mente de criança era enorme. Hoje eu sei que era pouco maior que uma camionete D-10. Fomos a Ervália levar a Vovó , e na volta ele enguiçou perto de Limeira. Tivemos que caminhar à pé uma longa distancia até Itamuri onde conseguimos um carro de aluguel. No outro dia meu pai voltou lá para buscar o caminhão e o trouxe no bolso, quer dizer, acabou passando ele no cobre.

Um caminhão Ford 46 do mesmo modelo que meu pai possuiu

Depois foi a vez do Cinca Chanboard ano 1963. Era verde e branco, com rabo de peixe. Tinha um potente motor V-8  que quase sempre era abastecido com gasolina azul. Naquela época comprar um bom carro era façanha para poucos, mas o combustível era muito barato, ao contrário de hoje quando é relativamente fácil adquirir um carro e muito dispendioso mantê-lo. O Cinca (as pessoas diziam “a Cinca”, mas meu pai dizia “o Cinca”. “O meu é macho”, gostava de falar) era muito confortável e bebia muito. Enguiçava muito também e uma vez passamos a noite dentro dele quando vínhamos de Ervália (sempre Ervália) numa noite chuvosa em que ele enguiçou na estrada. Somente agora ao relembrar esses fatos e pesquisar na Internet descobri que o carro era fabricado na França. Falei  com o pai e ele disse que sabia, somente não havia comentado comigo. O Cinca foi vendido para um cara do Barroso e depois foi parar na mão do João Ferreira.

Esse é o charmoso Cinca Chanboard. O carro era usado pelo Vigilante Rodoviário, da famosa série de TV. Mal sabia eu que o carro era usado por um futuro colega de profissão. Sim, porque o ator que fazia a série acabou fazendo parte da Polícia Rodoviária quando a série terminou.

Paralelamente ao Cinca, numa ocasião possuímos uma Pic up Willis adquirida do Saulo Moreira. Uma camionete fazia muita falta para as entregas da oficina e foi uma mão na roda. Esse carro foi todo reformado e pintado pelo Zé Romildo, filho do Zé Borges, lá na garagem do falecido Nilton Lelli. Foi o primeiro carro que o Zé Romildo pintou, até então era reformador de charrete. Infelizmente esse carro ficou pouco tempo conosco.

O carro mais novo em termos de estado de conservação que meu pai comprou foi uma Variant 1971, adquirida do Capitão Procópio de Carangola. O carro tinha até cheiro de novo. Era da cor azul diamante (claro) e foi apelidada de Gansinha. Um tempo depois foi negociada com o Chico Costa em troca de um Fusquinha ano 1972. Depois foi para o um tal de Márcio da Minas Caixa e mais tarde para o  Stanislaw com quem ficou muitos anos. O Leno era o motorista do avô.

A Gansinha. Na verdade essa da foto era ano 1970. A 1971 tinha quatro faróis redondos e não dois quadrados. A cor, Azul diamante, era exatamente essa.

O Fusquinha do Chico foi traçado por uma Variant Ano 1974, Ocre Marajó que apelidamos de Gansona. Também ficou conosco por um bom tempo e foi trocada por uma Pic up F-75 azul, com o Zé Pedrosa. Essa camionete era muito nova e foi muito bem conservada pelo Sr. Juquita, sendo possuída  por mais de dez anos. Até hoje lembro da antiga placa: IF 4832. Seu apelido era Ébria, porque bebia muito.

A Pick Up Ford F75. Um carro que ficou na família por mais de uma década. O amor era tanto que aceitávamos a bebedeira da Ébria numa boa e sem recorrer ao "AA"

Juntamente com a Ébria, possuímos alguns carros de passeio. O primeiro foi um Opala 76, vinho adquirido do Liberato Costa,  irmão do Chico. Seu apelido era Navio porque era muito grande. A lembrança que tenho do Navio foi do dia em que ele foi vendido para o dono do Gran Circo Belga que estava na cidade. Meu pai foi passear no circo e o dono propôs compra como quem não queria nada. Meu pai colocou preço e o danado abafou. Na hora de entregar, minha irmã Luciana pegou birra e chorou muito. Que vexame! Na verdade ficamos todos tristes com a venda, pois o carro estava lindão, e como disse já fazia parte da família.
O Opala, carro da GM que por muitos anos foi a grande paixão do Sr. Juquita.

Aí foi a vez de um  Dodge Polara 1800, ano 1978. Esse carro marcou muito nossa mente, pois várias vezes fomos a Carangola e Tombos para as noitadas. Naquela época a fiscalização de transito, embora rigorosa quanto a menores no volante, era tolerante com inabilitados. Esse carro vendido para um tal de Amaro, corretado pelo João Amaral.

O Dodge Polara 1800. Foi o primeiro carro pequeno no Brasil com o Luxo e o desempenho de um carro grande. Fez um grande sucesso e foi eleito o carro do ano em 1978. O nosso era marrom ano 1979. Depois foi comprado pela VW e sua última versão, 1982, saiu com o painel do Passat.

Em seguida compramos outro navio, ou seja, outro Opala, agora ano 1978. Era bege com os bancos vermelhos e tempos depois foi vendido ao Sebastião Ricardo.

Em 1986, em plena quebradeira do plano cruzado, fomos a Manhuaçu com o intuito de comprar outro Opala, que como os amigos leitores já devem ter percebido era a paixão do  Seu Juquita Marceneiro. A cidade como grande centro cafeeiro abrigava um grande número de falidos que após os meses de euforia e consumo vendiam seus carros a preços módicos para saírem do aperto. Uma vez lá, devido às oportunidades acabamos comprando um Passat Village ano 1985, estalando de novo, com apenas 35 mil quilômetros rodados. Foi um delírio. Como meu pai estava ainda meio desconfiado, pois queria mesmo era um Opala, fiz uma comparação que lhe arrancou risadas. Disse que sair para comprar um Opala e voltar de Passat, era o mesmo que sair pensando na Elke Maravilha e acabar ficando com a Luiza Brunet. Imaginem vocês que se hoje a Luiza é uma coroa enxuta, na época ela estava no auge, top model exclusiva da Dijon. Esse Passat também me marcou muito, pois foi nele que tirei carteira de motorista. Alguns anos depois foi vendido para o Fabinho do Baldino.

Passat Village - carro que deixou saudades. Num desses Alexandre e eu tiramos carteira de motorista

Nesse meio tempo, a Ébria foi trocada por uma Chevy 500 preta, com as rodas cromadas, muito bonita. Essa Chevy recebeu o apelido de Ebrinha, não porque bebesse muito, que não era o caso, mas para homenagear a outra que deixou saudades. Assim passamos a nos referir à outra como sendo a Ebrona. Essa Ebrinha foi vendida muito tempo depois para o Bruno da Vidraçaria Consenza em Carangola.

Em 1992 compramos uma Kombi de carroceria de carga em Juiz de Fora, na cor vermelha, pois fora da Coca-cola. Esse carro está com meu pai até hoje. Algum tempo depois ele comprou um Escort Hobby vermelho de Sr. Mário Ferreira que logo trocou num Kadett 93 cinza, que está com minha irmã Luciana. Atualmente ele está com um Monza ano 93 que foi adquirido em Itaperuna, tendo a referencia do franciscano Reinaldo Moreira.

Meu pai sempre cuidou muito bem de seus veículos, limpando, polindo e revisando. Seus carros foram (e são) como disse, membros da família. Quando nos ensinava a dirigir ficava falando para desviarmos dos buracos, das bostas de boi e das poças de barro. Torrava o nosso saco e eu comentava com meu irmão Alexandre que quando comprasse um carro meu,  só por desaforo iria catar todos os buracos e todas as bostas de boi de preferência com meu pai de lado. É claro que tal coisa nunca aconteceu. Quando por volta do ano de 1991comprei meu primeiro carro, um Passat 81 bege que fumava escondido cuidei dele com o maior carinho.

Quando Luciana, minha irmã caçula começou a dirigir, o paizão a orientou na compra de um Chevette 78, até que bem aprumadinho. Quando ela reclamava dos defeitos e do preço do mecânico meu pai dizia filosófico: “Feliz daquele que possui um carro velho, pois é uma verdadeira escola”. E eu completo que além de escola é uma expiação dos pecados e aproxima do céu. É uma pena que não tenhamos fotos de todos esses carros, esses familiares que se foram, marcaram época e deixaram saudades.

CAMIONETES & NOMES

Não é raro pessoas colocarem nome nos seus carros. O Marcelo da Rute tinha uma motocicleta XL 250 que se chamava Vera Ficher. Depois comprou um Fuça Ocre Marajó (para quem não sabe é uma cor marrom-avermelhado, ou vermelho-amarronzado) e deu-lhe o nome de Julião. Os demais não sei se batizou, mas acredito que sim.

Quando meu Tio Alfredo morava na Saracura, local próximo ao distrito de  Monte Alverne em Miradouro, o ônibus que servia aquela região tinha o nome de Jumenta. As pessoas perguntavam uma às outras: “Você já montou na Jumenta hoje?”. Assim como na novela Tieta em que o ônibus se chamava Marinete.

Uma ocasião um fazendeiro rico do Barroso adquiriu duas Camionetes Studbacker, e as batizou de Paresca e Liduvina. A Paresca foi vendida ao Zé do Oscar, e de vez em quando meu pai a pegava emprestada para fazer entregas. Os bancos da igreja matriz foram entreges na Paresca. No seu interior, acima do pára-brisa tinha escrita a seguinte frase: “A vida começa aos quarenta e termina aos sessenta km/h”.
Essa é uma Studbacker, quase idêntica à Paresca. A diferença é a carroceria, que na Paresca era de madeira.

O Toninho do Dé uma época tinha alguns caminhões e todos tinha nomes. Um era o Verdinho, o outro o Toquinho, tinha o Paraibinha, o Fubazinho, e assim por diante.

Outro carro conhecido que tinha nome na cidade era a Dorvalina, ou simplesmente Dorva, a camionete Ford F100 da Prefeitura. Durante muitos anos foi o único carro municipal que servia para as viagens do prefeito, para a educação, para a saúde, etc. Era dirigida pelo Quinzinho Nicolau, marido da Levinda. O Quinzinho era muito cuidadoso com a Dorva que era reformada quase todo ano. Depois que o Sr. Dé aposentou-se, o Quinzinho passou para o caminhão caçamba e a Dorva, sem motorista fixo e sem o carinho de sempre foi se acabando até ser descartada.
Nessa foto vemos a Dorva, já bem acabada no porta do Estádio Municipal em dia de festa. Para quem não conheceu a ilustre personagem, é a camionete verde ao lado da Picape de carroseria de madeira.

OS CARROS DA CIDADE
Como disse acima, comprar carro naquela época não era fácil. Carro zero então era raro. Em São Francisco poucas pessoas tinham esse privilégio, ou ainda, essa vaidade. Ás vezes alguém comprava um carro zero e ficava com ele 10 anos. O Capitão Ricardo usou um Jeep por muitos anos e depois comprou uma Rural 0 km. Somente muitos anos depois comprou uma Brasilia, também 0 km. O Zico Pedrosa gostava de camionetes, comprava Chevrolet C-14 que usava também por muitos anos. Depois foram as C-10, até que finalmente aderiu ao Corcel II.

Dos que trocavam de carro todo ano, dois eram de lei: O Elton Ricardo que trocava de Corcel sem sequer gastar os pneus, e o Lico Mercadinho que trocava de Dodge Dart também anualmente.

Esse é o Dodge Dart, carro que por muitos anos, enquanto foi fabricado era o preferido do Lico Mercadinho

O primeiro Maverick da cidade era do Lauzinho Laviola. Um oito cilindros vermelho com teto vinil preto. Depois o Ari Pedrosa comprou um Azul com teto vinil branco. Eram lindos.
Ford Maverick, sensação nos anos 70
O Senhor Ari era outro que era fã dos Opalas, sendo fiel ao modelo enquanto foi fabricado. O último Opala a vir para a região foi comprado por ele.
Foi também do Lauzinho o primeiro Passat que apareceu na cidade. Agora a primeira Brasília que vi era do Rominho Beviláqua, genro do João Ricardo. O primeiro Fiat 147 da cidade e da região era do Nascimento Moreira. Deve ter passado muita raiva.
Há alguns casos atípicos, como o Chevette 74 do Nengo que foi comprado semi-novo e está com ele até hoje. Fica mais de seis meses sem sair da garagem. Ou ainda o Nenecão Moreira que comprou uma Variant II zero km e usou até acabar, acabar mesmo a ponto de virar poleiro de galinha lá na roça.
Outro caso à parte são os carros do Pedro Oleiro. Uma vez eu estava na Kombi do pai e tive um encontro com o Pedro Oleiro na esquina do Zé do Oscar que resultou numa colisão. Eu entrando no cruzamento rumo ao asfalto e ele subindo num Landau, parecia que subia na banguela, sem barulho de motor, somente de pneus que zuniam nas pedras da rua. E também sem freios, pois me pegou de lado em câmera lenta e arregaçou a lateral da Kombi. Eu só vi aquele monstro preto crescendo no visual, tentei acelerar a Kombi para sair fora mas não deu tempo. O Landau do Pedro ficou intacto, parecia que um mosquito havia pousado no pára-choque. Quanto a mim, as economias da época foram todas no conserto da Kombi.
O Marcelo da Ruth tem uma foto com o Lucas no colo em frente ao carro do Pedro Oleiro.
Recado para o Marcelo:
"Ô Marcelo, vê se manda uma cópia pra gente colocar aqui, OK? Manda também da Vera Ficher e do Julião. Fico aguardando."
Contando outro caso trágico e cômico, uma ocasião o Adão Zoresca apareceu com um Dodginho caindo aos pedaços, e sem experiência de volante estava andando feito louco pela cidade. Havia  um grupinho de pessoas na esquina perto do Quito quando ele passou, e o Jair Biciate comentou que era um absurdo aquele carro transitar sem condições de segurança com um motorista inexperiente e irresponsável, e que mais cedo ou mais tarde ele iria arrebentar o carro de alguém, e que aí sim, as autoridades competentes tomariam providencias. Dito isso o Jair foi para casa e entrou. Momentos depois ouviu um grande estrondo em frente e foi para fora ver o que era. O Adão havia contornado a praça, subiu para a igreja e virou perto do Xadinho. Quando estava voltando e passando perto da casa do Jair, perdeu o controle do Dodginho e cacetou o fusca do Jair que estava parado. Quando o Jair saiu o Adão estava meio zonzo pela batida e pela bebida, ainda sem entender direito o que havia acontecido. O Jair, indignado viu sua previsão de minutos antes se concretizar e falou: "Ô Adão, eu sabia que você ia acabar fazendo uma dessas, eu só não imaginava que seria comigo."
Desnecessário dizer que o episódio virou piada na cidade.
Abaixo coloco um link para uma crônica minha que fala sobre a relação entre proprietários de carros velhos e os mecânicos. Dêem uma olhadinha:

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