ALGUMAS OUTRAS LEMBRANÇAS DO GRUPO ESCOLAR SANTO AGOSTINHO
João Eduardo Ornelas
Brincadeiras do dia da criança.
Eram inúmeras, todas muito divertidas, mas algumas eram mais vantajosas para o participante. Como toda criança é gulosa vantagem pra gente significava uma oportunidade de abocanhar algo diferente, e sob esse aspecto nada como participar da brincadeira de pegar a maçã balde. Enchiam-se baldes com água até o meio e colocava-se dentro um maça que deveria ser pega com a boca sem o auxílio das mãos. Os concorrentes deveriam mergulhar a cabeça no balde e aquele que conseguisse primeiro seria o vencedor. Mas o maior atrativo era que mesmo os perdedores recebiam como prêmio de consolação que era a maça. E naquela época maça era raridade em São Chico, sendo mais cobiçadas que o próprio prêmio que sempre era lápis de cor ou livrinhos de história.
Semelhante atrativo tinha a corrida com o ovo na colher, uma vez que também nessa modalidade os perdedores tinham o direito de devorar o ovo cozido que embora na tivesse o estatus de uma maça, não era desprezado.
Uma brincadeira no mínimo curiosa era a do barbante. Amarrava-se uma bala no meio de um barbante, e colocava-se as pontas na boca dos dois concorrentes, que deveriam puxar o fio para dentro da boca sem o auxílio das mãos. O que chegasse primeiro à bala seria o vencedor. Alguns bocudos se especializaram na modalidade tornando-se praticamente imbatíveis.
E havia as brincadeiras de sempre como a corrida de saco, o cabo de força e a queimada. A nossa revolta era que a gente jogava queimada com as meninas, mas elas não jogavam futebol com a gente. E como sempre saíamos derrotados, nosso consolo era desafiá-las para o futebol, desafio esse nunca aceito. Mas que falta de esportividade e cavalheirismo a nossa!
Dona Efigênia
Antigamente as professoras eram chamadas de Dona, e não de Tia. Dona Efigênia tratava a seus alunos com um carinho de mãe. “Meus santinhos pra cá”, “meus Queridos pra lá”, enchendo os cadernos de notas “10”, “parabéns” e “muito bem”. Tinha um dom todo especial e era impossível não sentir afeto por ela.
Dona Astrogilda
A Dona Astrogilda lecionava para o quarto ano repetente, ou como se dizia de forma politicamente incorreto, “o quarto ano atrasado”. Seus alunos eram “cavalões”, como eram chamados aqueles alunos já de idade avançada e que devido a várias reprovações estavam ainda no grupo. Alguns tinham bigodes, barba e já engrossavam a voz. Dona Astrogilda se dedicava a todos com carinho e paciência, e com muito carisma era adorada e admirada por todos. Alguns alunos de relacionamento difícil, brigões, somente respeitavam a ela, que se impunha com moral e rigor sempre afetuoso.
As festas em sua classe quase sempre acabavam em forró, já que tinha lá o já adolescente Sebastião Cortes, que tocava sanfona desde criança. É o mesmo atualmente conhecido Bastião Corte que anima forrós na cidade e zona rural. Astrogilda dançava e cantava com os alunos, a maioria da roça e por tradição acostumados com forró.
A saudosa professora possuía um Fusquinha bege, com uma gaiolinha pendurada no retrovisor interno. Faleceu de forma trágica num acidente automobilístico numa curva perto de Fervedouro. Durante muitos anos referiram-se àquele local de triste lembrança como “Curva da Astrogilda”. Partiu prematuramente, mas deixou sua marca nas pessoas que a conheceram, sobretudo no desempenho digno de sua profissão no Grupo Escolar Santo Agostinho.
CAIXA ESCOLAR.
A caixa escolar era um fundo destinado à manutenção da escola e ajuda a alunos carentes. Podia-se dizer que era o departamento financeiro. Os alunos considerados carentes eram selecionados e recebiam uniforme, material escolar e merenda. Eu nunca fiz parte da caixa escolar, que cometia alguns equívocos na hora de selecionar os alunos. Alguns que não necessitavam eram relacionados em detrimento de outros que mereciam ajuda e ficavam de fora. Essa porém não era a regra e sim a exceção. E não creio que havia má fé, era falha mesmo.
Apesar de achar que meu irmão e eu não necessitávamos de pertencer à caixa, outros que necessitavam menos ainda faziam parte. O fato me doía muito, não pelo material escolar ou pelo uniforme, mas por ser excluído da merenda da cantina, o delicioso mingau de couve da Dona Nenê que cheirava longe. Assim, de vez em quando me fazia de besta e entrava na fila da merenda, misturava-me aos demais alunos e comia com um olho na sopa e outro na diretora, a Dona Maria Emilia que quando descobria um intruso, mandava de volta pra sala. E a gente podia dar-se por satisfeito se não levasse com um beliscão na bunda.
O Tião do Tatão Patrocínio era da caixa e todos os dias comia da sopa. Como se não bastasse mandavam merenda de casa pra ele. Quando a Inez trazia o pão com manteiga e o folgado estava na cantina tomando sopa, eu pegava o embrulho pra ele e colocava na janela próximo à sua carteira. Era triste ver ele chegar passando a mão na barriga de tão cheia e ainda comer aquele pão apetitoso. Logo eu que não tomava a sopa e não levava merenda de casa. Um dia não me contive e comi o pão do Tião, e depois falei descaradamente que havia colocado na janela e que alguém deveria ter pegado. Ele não se importou, e caso tivesse me olhado mais detidamente teria visto os cantos da minha boca ainda sujos de manteiga.
Bronca Injusta
Quando entrei na primeira série, o que mais ansiava era pelo desfile de 7 de setembro. Quando começaram os ensaios no pátio do grupo fiquei entusiasmado. Como ninguém havia me orientado, pensei que bastava bater o pé direito mais forte que o esquerdo, não sabia que precisava bater no ritmo do bumbo. Então lá estava eu batendo o pé desencontrado, crente que estava fazendo direito.
Num dado momento uma educadora já nervosa como o ensaio que estava horroroso, me passou o maior esculacho:
--João que vergonha, um homão desse tamanho e não sabe marchar até hoje, disse me pegando pelo braço e me dando umas sacudidas.
Fiquei indignado com aquela situação. Como é que eu poderia saber marchar se era meu primeiro ano na escola ninguém se dera ao trabalho de me ensinar? Aquela bronca foi totalmente injusta, me magoou e revoltou muito. Quando uma criança leva um pito pelo qual faz jus, ela se envergonha, mas aceita. Mas quando não faz por onde, a revolta é certa. Sinto isso com minha filha de três anos que já sabe diferenciar os fatos. As vezes ela pergunta:
--Papai, porque você tà zangando comigo?
Eu era de fato grande para minha idade e isso às vezes confundia as pessoas. Sofri muito por isso. Certa vez estava em Carangola e fui a um Play graund para brincar mas fui barrado na porta. Havia um risco limitando a altura máxima para entrar, e como minha estatura estava acima do risco, fiquei de fora olhando pela tela crianças bem mais velhas que eu se divertindo.
A responsabilidade de um educador é enorme, seja pais ou professor. Uma bronca equivocada ou na hora e local errados pode prejudicar e até traumatizar uma criança. Por isso é que se diz que se zangar com alguém é fácil. Difícil é zangar com a pessoa certa, na hora certa, de forma certa e na medida certa.
Clube de leitura.
Na quarta série fui eleito presidente do clube de leitura, uma espécie de Grêmio Estudantil. Não havia chapa formada, o mais votado seria o presidente, o segundo seria o vice e o terceiro o secretário. O Pasceli do Paschoal ficou em segundo, o terceiro não me lembro.
Tínhamos então que escolher o nome do clube que deveria ser o de um escritor. Como éramos fã de Walt Disney, queríamos que esse fosse o nome escolhido. A professora, porém não aceitou, disse que esse nome não era de uma pessoa, mas de uma entidade, e que Walt Disney queria dizer Mundo Disney. Tentamos mostrar que ela estava errada, que Walt Disney era o fundador da Disneylândia, e criador o Mickey Mouse. Nós sabíamos, pois estávamos cansados de ler revistinhas de Walt Disney. Foi tudo em vão, ela não aceitou e mandou que escolhêssemos outro nome. Como na minha casa tinha um livro que contava a historia da vida de Machado de Assis, sugeri o nome que foi aprovado. Na reunião inaugural foi lida a historia do Machado e deu tudo certo. No mês seguinte a sala da Dona Astrogilda inaugurou o Clube de Leitura Walt Disney, e nós morremos de inveja. Falamos com nossa professora e ela desconversou sem graça.
No clube de leituras havia apresentações, leituras e poesias alusivos às datas comemorativas do bimestre, algumas brincadeiras e piadas. O Tião do Tatão sempre apresentava Charadinhas, um dos pontos mais esperados da reunião.
Estágio
Quando fiz o curso de magistério fui estagiar no grupo. Eram semanas intermináveis de muito sofrimento com alunos bagunceiros. Um período, porém foi pior que os outros, pois havia na sala um aluno endiabrado, que fazia arte de todo tipo e não respeitava ninguém. Um dia ele estava quebrando a ponta do lápis de propósito só para ir no cesto de lixo fazer ponta e ficar de palhaçada. Tentando colocar moral falei pra ele:
--Se quebrar a ponta de novo vai ter que fazer com a boca.
Não é que o danado na hora mastigou o lápis todinho? Aí eu vi que a coisa tava preta.
Mudei de estratégia, comprei um revólver de brinquedo que atirava bolinhas, muito cobiçado na época pela meninada. Quando o bagunceiro foi ao banheiro eu fui atrás e conversei com ele:
--Faltam 4 dias para terminar o estágio. Se você prometer que não vai fazer bagunça eu te dou esse revolver no último dia.
Trato feito voltamos pra sala amigos íntimos. Quando ele esquecia do combinado e começava a fazer bagunça, eu me aproximava dele e sussurava:
--olha o revolvinho.
E ele ficava quietinho.
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