sexta-feira, 23 de março de 2012

BENDITO NINHO

BENDITO NINHO

João Eduardo Ornelas

Casa querida, bendito ninho

Onde é o patrono, Santo Agostinho.

Este é o refrão da musica que os alunos do extinto Grupo Escolar Santo Agostinho cantavam nos auditórios (assim eram chamados as cerimônias e os atos cívicos). Não sei se foi feita com exclusividade ou adaptada para a escola e também desconheço o autor. Só sei que este versinho está gravado na minha mente e na de dezenas de outras pessoas que iniciaram seus passos no conhecimento escolar nesta instituição.

Ingressei-me neste ninho em 1972 com sete anos de idade, tendo por professora a jovem Gelsumina Ricardo. Meu irmão Alexandre ingressou no ano anterior e ainda foi aluno da Dona Alcina, já no finalzinho da carreira. Tive o privilégio de conviver com educadoras maravilhosas, algumas quealém do amor à profissão tinham um grande talento para ensinar. A Dona Efigênia chamava seus alunos carinhosamente de “meus santinhos”. Marcou-me também o carisma e a alegria da  dona Astrogilda, apesar de não ter sido minha professora. Outras que me lembro bem são, a Mariza Moreira, a Mariinha do Valdir, a Maildes Ricardo, a Maria José Brandão, a Conceição do Geraldo Gomes e a Auxiliadora Reis. Lembro-me com carinho especial, apesar dos beslicões, da Dona Maria Emilia Moreira, a  dedicada e bondosa diretora.

Ali iniciei grandes amizades, algumas perduram até hoje e melhoram com o passar do tempo. Com outros perdi o contato e nem imagino por onde andam.  Dos que sumiram destaco o Nelsinho, filho do farmacêutico, com quem dividia a carteira que naquela época eram duplas. Tínhamos  tantaafinidade que nos entendíamos até por gestos. Terminada a aula continuávamos juntos nas brincadeiras pelas ruas. Com ele aprendi a torcer pelo Cruzeiro.

Dos que mantenho contato destaco o Marcelo Abreu, atleticano só pra contrariar. Fomos sócios numa coleção de gibis, e nossa amizade amadurece junto conosco. Antevejo o dia em que seremos dois velhos gagás recordando o passado e discutindo futebol e política.

A sopa gostosa feita pela dona Neném deixava a todos com água na boca. Grande parte das verduras utilizadas para fazer a sopa era cultivada no próprio grupo, na bela horta ao lado da cozinha, carinhosamente cuidada pelo Sr. Agostinho, o servente. Aliás, quando conheci o grupo penseique seu nome se devia à pessoa do Sr. Agostinho, e como tal pensava que ele era a pessoa mais importante dali.

 As brincadeiras do dia das crianças eram ansiosamente aguardadas: corrida de saco, cabo de força, etc. Adorávamos também as festas juninas com as animadas quadrilhas e casamento do Jeca e as disputadas gincanas para arrecadar fundos, material escolar e alimentos.

Envaidece-me lembrar de alguns detalhes: minhas redações quase sempre eram as escolhidas para ir para o jornalzinho; na quarta série fui escolhido pela classe para presidir o clube de leitura Machado de Assis; conclui o primário em primeiro lugar sendo presenteado com o livro Memóriasde Um Burro, por mais contraditório que pareça. Até hoje guardo o presente com carinho.

A parede do topo na parte externa muitas vezes serviu de tela onde a Kombi do consulado alemão projetava filmes. Eram filmes educativos e que enalteciam a pátria deles, a Alemanha Ocidental. O desenho animado Os Músicos de Bremen fez grande sucesso junto à população. Toda a cidadese reunia para assistir, já que as opções de lazer eram poucas.

Era também no grupo que a gente se submetia a exame de feses. Levávamos o material no vidrinho, ou até em caixinha de fósforo (se saísse firme) e depois de analisados ganhávamos os lombrigueiros. Até hoje não entendo o porque dos exames já que todos recebiam o mesmo medicamento: Mebendazol em dose única, amargo de doer. Minha saudosa mãe costumava revestir os comprimidos com miolo de pão para que engolíssemos mais facilmente. Era um verdadeiro festival de lombrigas.

A partir de 1976 não mais estudei lá, mas o grupo voltaria a fazer parte de minha vida de forma marcante em outras oportunidades. Em suas dependências iniciei-me no sagrado direito do voto. Repeti o gesto cívico várias vezes na seção 126 que funcionava na penúltima sala. Em 1983 e 1984, cursando o magistério lá retornei como estagiário e tive a oportunidade de expiar muitos de meus pecados suportando as bagunças dos alunos. Senti a coisa do outro lado e tive pena de minhas antigas mestras.

Aos poucos, porém o velho grupo foi sendo abandonado e acabou vazio. Desde que me entendia por gente ouvia comentários de que o local de sua edificação fora mal escolhido, que era um estorvo para o centro da cidade, fato que se deu por um lamentável equivoco político, e o que melhorque se fazia seria demoli-lo. Confesso que achava sua localização meio estranha, bem no meio da praça, mas parece que ninguém conseguiu avaliar o impacto que sua demolição causaria nas pessoas. Ver aquele símbolo de nossa infância simplesmente sumir de nossas vistas foi um baque e tanto.

O velho grupo mesmo vazio, mesmo desgastado, mesmo sem os cartazes, sem os pezinhos de feijão colocados nas janelas, sem a algazarra alegre da molecada,  ainda assim era um deposito sagrado de nossa memória, um guardião silencioso de nossas mais doces lembranças. Parece que umpedaço de nós ruiu junto com ele.

Contam os que assitiram a demolição que as paredes de tijolinhos de barro estavam firmes, as madeiras de lei em perfeito estado. Parecia que o velho grupo teimava em ficar de pé, querendo continuar a testemunhar a historia da cidade, e quem sabe ser o bendito ninho também para nossosfilhos e netos.

Ao olhar o terreno vazio na Praça São Francisco de Assis não há como deixar de sentir saudades daquela Casa Querida. Resta apelar para as lembranças gravadas na mente, e que ninguém nos tira jamais.

O Grupo Escolar Santo Agostinho estará sempre edificado na nossa memória. Basta fechar os olhos, dar asas à imaginação, virar criança outra vez, correr pelo pátio, fazer algazarra, ouvir a sineta tocada pela Dona Caridade, sentir o cheirinho gostoso da sopa da Dona Neném e cantarolar o versinho:
Casa querida, bendito ninho,
onde é o patrono Santo Agostinho.

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