BENDITO NINHO
João Eduardo Ornelas
Casa querida , bendito ninho
Ingressei-me neste ninho em 1972 com sete anos de idade , tendo por professora a jovem Gelsumina Ricardo. Meu irmão Alexandre ingressou no ano anterior e ainda foi aluno da Dona Alcina, já no finalzinho da carreira . Tive o privilégio de conviver com educadoras maravilhosas, algumas que além do amor à profissão tinham um grande talento para ensinar . A Dona Efigênia chamava seus alunos carinhosamente de “meus santinhos”. Marcou-me também o carisma e a alegria da dona Astrogilda, apesar de não ter sido minha professora. Outras que me lembro bem são , a Mariza Moreira, a Mariinha do Valdir, a Maildes Ricardo, a Maria José Brandão, a Conceição do Geraldo Gomes e a Auxiliadora Reis . Lembro-me com carinho especial , apesar dos beslicões, da Dona Maria Emilia Moreira, a dedicada e bondosa diretora.
Dos que mantenho contato destaco o Marcelo Abreu, atleticano só pra contrariar . Fomos sócios numa coleção de gibis , e nossa amizade amadurece junto conosco . Antevejo o dia em que seremos dois velhos gagás recordando o passado e discutindo futebol e política .
A sopa gostosa feita pela dona Neném deixava a todos com água na boca . Grande parte das verduras utilizadas para fazer a sopa era cultivada no próprio grupo , na bela horta ao lado da cozinha , carinhosamente cuidada pelo Sr. Agostinho, o servente . Aliás , quando conheci o grupo penseique seu nome se devia à pessoa do Sr. Agostinho, e como tal pensava que ele era a pessoa mais importante dali.
As brincadeiras do dia das crianças eram ansiosamente aguardadas: corrida de saco , cabo de força , etc. Adorávamos também as festas juninas com as animadas quadrilhas e casamento do Jeca e as disputadas gincanas para arrecadar fundos , material escolar e alimentos .
Envaidece-me lembrar de alguns detalhes : minhas redações quase sempre eram as escolhidas para ir para o jornalzinho; na quarta série fui escolhido pela classe para presidir o clube de leitura Machado de Assis; conclui o primário em primeiro lugar sendo presenteado com o livro Memórias de Um Burro , por mais contraditório que pareça. Até hoje guardo o presente com carinho .
A parede do topo na parte externa muitas vezes serviu de tela onde a Kombi do consulado alemão projetava filmes . Eram filmes educativos e que enalteciam a pátria deles, a Alemanha Ocidental . O desenho animado Os Músicos de Bremen fez grande sucesso junto à população . Toda a cidade se reunia para assistir , já que as opções de lazer eram poucas.
A partir de 1976 não mais estudei lá , mas o grupo voltaria a fazer parte de minha vida de forma marcante em outras oportunidades . Em suas dependências iniciei-me no sagrado direito do voto . Repeti o gesto cívico várias vezes na seção 126 que funcionava na penúltima sala . Em 1983 e 1984, cursando o magistério lá retornei como estagiário e tive a oportunidade de expiar muitos de meus pecados suportando as bagunças dos alunos . Senti a coisa do outro lado e tive pena de minhas antigas mestras.
Aos poucos, porém o velho grupo foi sendo abandonado e acabou vazio . Desde que me entendia por gente ouvia comentários de que o local de sua edificação fora mal escolhido, que era um estorvo para o centro da cidade , fato que se deu por um lamentável equivoco político , e o que melhor que se fazia seria demoli-lo. Confesso que achava sua localização meio estranha , bem no meio da praça , mas parece que ninguém conseguiu avaliar o impacto que sua demolição causaria nas pessoas . Ver aquele símbolo de nossa infância simplesmente sumir de nossas vistas foi um baque e tanto .
O velho grupo mesmo vazio , mesmo desgastado, mesmo sem os cartazes , sem os pezinhos de feijão colocados nas janelas , sem a algazarra alegre da molecada, ainda assim era um deposito sagrado de nossa memória , um guardião silencioso de nossas mais doces lembranças . Parece que um pedaço de nós ruiu junto com ele .
Contam os que assitiram a demolição que as paredes de tijolinhos de barro estavam firmes , as madeiras de lei em perfeito estado . Parecia que o velho grupo teimava em ficar de pé , querendo continuar a testemunhar a historia da cidade , e quem sabe ser o bendito ninho também para nossos filhos e netos .
Ao olhar o terreno vazio na Praça São Francisco de Assis não há como deixar de sentir saudades daquela Casa Querida . Resta apelar para as lembranças gravadas na mente , e que ninguém nos tira jamais .
O Grupo Escolar Santo Agostinho estará sempre edificado na nossa memória . Basta fechar os olhos , dar asas à imaginação , virar criança outra vez , correr pelo pátio , fazer algazarra , ouvir a sineta tocada pela Dona Caridade , sentir o cheirinho gostoso da sopa da Dona Neném e cantarolar o versinho:
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