sexta-feira, 23 de março de 2012

BRIGAS DE CRIANÇA

BRIGAS DE CRIANÇA


João Eduardo Ornelas

Briga entre crianças é coisa normal em qualquer idade. Os pequeninos disputam brinquedos e atenções com tapas e puxões de cabelo enlouquecendo os pais. No natal um casal de vizinhos participou da ceia conosco e passamos a noite controlando nossos filhos que brigavam sem parar.
 Numa fase mais adiantada além do embate físico  ocorre também as discussões e a conhecida frase BELÉM BELÉM NUNCA MAIS FICAR DE BEM. Esse NUNCA MAIS pode durar um dia, uma hora, ou um minuto.
 Mais adiante, lá pelos 7 ou 8 anos de idade a frase muda um pouco:
---Se tiver vergonha na cara nunca mais fale  comigo.
Aí, o NUNCA MAIS se estende por um tempo um pouco maior, podendo chegar a semanas ou até meses. O curioso é que se os dois briguentos fizessem parte do mesmo grupo de brincadeiras, continuavam a se encontrar e a se comunicar através dos amigos que se tornavam porta vozes. O quenão podia de jeito nenhum era mencionar o nome do desafeto, senão vinha a repreensão imediatamente:
---Ih, falou o nome dele, não tem vergonha na cara.
O vacilão então se desculpava sem graça dizendo que se esquecera ou que fora sem querer, mas na verdade já era um sinal de que estava querendo ficar de bem.
 Já que era proibido falar o nome do outro, a comunicação dava-se  nos seguintes termos:
---Ô de calção azul, vê se toca mais a bola.
Ou então:
--- Ô filho do Juquita, marca o fulano aí.
 Lembro-me que o Marcelo estava de mal com o Júlio, seu irmão, e quando ia acorda-lo a mando do Seu Chiquinho Azevedo, gritava da porta do quarto:
---ô cara, acorda aí cara, o pai tá chamando, preguiçoso.
 Um vez fiquei de mal com o Nelsinho, à época meu amigo mais chegado  e com quem dividia a carteira na escola. Esse fato não impediu que continuássemos nos comunicando, evidentemente usando subterfúgios que não ferisse a regra de não mencionar o nome do outro. Um falava alto semolhar para o interlocutor, que respondia também sem olhar. Às vezes quase nos traíamos:
---Ô Joa..., quer dizer ô cara, me empresta a borracha aí.
Nossa briga já durava uma semana e nenhum de nós agüentava mais e vontade de voltar às boas. Aí o Nelsinho me falou:
---Ô cara, tô com uma coceira nas costas, dá uma olhadinha pra ver o que é.
E levantou a camisa para eu olhar.
---Tem um bitelo de um carrapato aí, falei.
---Você faz o favor  de tirar pra mim?
Eu tirei o carrapato e mostrei pra ele que comentou:
---É grande mesmo o danado. Muito Obrigado.
---De nada.
E viramos pra frente de cara feia a fim de continuar a rusga. Ai eu não agüentei, baixei a cabeça e comecei a rir. Percebi que o Nelsinho também disfarçava o riso. Então nos encaramos e ele que era mais descontraído que eu falou:
---Depois desse carrapato, nós somos obrigados a ficar de bem.
---Então toca aqui, estendi a mão  pondo fim à briga.
Ele apertou minha mão e falou:
---Nós somos dois sem vergonha mesmo, hein?


PROVOCADORES

 Havia aqueles caras perversos que gostavam de provocar brigas. Chegavam sem mais nem menos e estimulava uma luta entre dois meninos sem o menor motivo, só de maldade e pra ver quem vencia. Quem corresse da raia, fazia  feio e ficava difamado. Uma das táticas usadas era colocar a mãoestendida na frente do rosto dos dois futuros contendores e dizer que aquele que fosse mais machão que cuspisse na mão. Na hora da cusparada o provocador tirava a mão e o cuspe batia no rosto do outro. Ai não tinha mais jeito, o pau quebrava.
 Uma vez lá perto do campo, um desses caras maus e chatos deu de provocar uma briga entre o João Beijo, filho do Seu Juca e eu. Como sempre fui pacato, comecei a me esquivar dizendo que não tava a fim de brigar, que não tinha motivo e que o João era meu amigo.
---Você ta é com medo, cagão. Falou o mau elemento.
Aí eu vi que não tinha mais jeito. Dei uma cubada no João fiquei analisando. Ele era mais forte que eu, tinha mais preparo pois vivia tocando boi para o Zé Pedrosa.  Seria sensato planejar logo uma tática para poder levar alguma vantagem. Decidi então que iria pegar pesado logo de inícioquando ele ainda estivesse desatento.
 Quando percebi que não tinha mais jeito, que a briga ia estourar, entrei com tudo porrando o adversário. Para minha surpresa ele não esboçou a menor reação, permaneceu com os braços abaixados e impassível. Aquela atitude me cortou o coração.
---Ôh João, reage cara, vamos brigar, falei.
---Eu não sou de briga não, respondeu ele choramingando.
Diante dessa situação constrangedora, comecei  a me desculpar enquanto o babaca que provocou a briga saia de fininho, sem graça.
Felizmente o João aceitou minhas desculpas e voltamos às boas.
 BRIGA DE PASTAS
 Uma das poucas brigas em que me meti foi com o Maurício do Zé do Oscar, no auditório do grupo. Sem mais nem menos começamos a disputar lugar na fila e a nos peitar igual galo de briga. Em seguida passamos a nos golpear com a pasta de objetos. Sabem aquelas pastas de curvim (courosintético) com fecho que era muito usada naquela época? Pois é, foi pastada a torto e a direito.
 Eu estava prestes  a chorar (e quem chorasse primeiro seria decretado perdedor) quando fui salvo pela Dona Maria Emilia, a diretora que chegou botando ordem com seus tradicionais beslicões. Saímos um para cada lado, fungando de cara feia e queimando de tanto levar pastada.
 Muitos anos depois relembrando o fato o Mauricio comentou que deu graças a Deus pela intervenção da diretora pois estava prestes a chorar. Eu disse que minha situação era idêntica e caímos na gargalhada. Empate técnico, sem dúvidas.

BRIGAS MEMORÁVEIS

 Havia aqueles caras que todo dia se metia numa briguinha. Parecia que era de lei, todo dia depois da aula tinha algum arranca rabo. Os  mais bravos escolhiam suas vítimas que invariavelmente apanhavam ou corriam. O engraçado é que os valentões não se enfrentavam  e não cruzavam ocaminho do outro. Gostaria de ter visto uma luta do tipo Julinho do Bahia versus Rocha Grande. Seria o combate do ano. Os irmão Rocha eram três. O Rochinha que arranjava confusão, e o Rocha médio e o Rochão que garantiam.
 Na nossa sala havia uma briga que parecia eterna. O Robson do seu Irineu de Araújo Porto e o Marquinho do Artur Guedes, todo santo dia saiam na porrada. Não se falavam mas bastava se olharem para se atracarem: no recreio, na fila ou mesmo dentro da sala. Quando esqueciam alguémlembrava:
---Ué, o Marquinho mais o Robson não brigaram hoje ainda!
Era a senha para o pau quebrar.
 Bons tempos aqueles em que as brigas eram insignificantes e não se guardava mágoa de ninguém. Aí a gente cresce, adquire um orgulho besta e se melindra por qualquer coisinha. Acaba se  afastando de pessoas queridas, cortando relações e perdendo amizades preciosas por causa depequenas besteiras. Uma pena!

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