BRIGAS DE CRIANÇA
João Eduardo Ornelas
Numa fase mais adiantada além do embate físico ocorre também as discussões e a conhecida frase BELÉM BELÉM NUNCA MAIS FICAR DE BEM . Esse NUNCA MAIS pode durar um dia , uma hora , ou um minuto .
---Se tiver vergonha na cara nunca mais fale comigo .
---Ih, falou o nome dele, não tem vergonha na cara .
O vacilão então se desculpava sem graça dizendo que se esquecera ou que fora sem querer , mas na verdade já era um sinal de que estava querendo ficar de bem .
---Ô de calção azul , vê se toca mais a bola .
--- Ô filho do Juquita, marca o fulano aí .
Lembro-me que o Marcelo estava de mal com o Júlio, seu irmão , e quando ia acorda-lo a mando do Seu Chiquinho Azevedo, gritava da porta do quarto :
---ô cara , acorda aí cara , o pai tá chamando, preguiçoso .
---Ô Joa..., quer dizer ô cara , me empresta a borracha aí .
---Ô cara , tô com uma coceira nas costas , dá uma olhadinha pra ver o que é.
E levantou a camisa para eu olhar .
---Tem um bitelo de um carrapato aí , falei.
---Você faz o favor de tirar pra mim ?
---É grande mesmo o danado . Muito Obrigado .
---De nada .
E viramos pra frente de cara feia a fim de continuar a rusga . Ai eu não agüentei, baixei a cabeça e comecei a rir . Percebi que o Nelsinho também disfarçava o riso . Então nos encaramos e ele que era mais descontraído que eu falou:
---Depois desse carrapato , nós somos obrigados a ficar de bem .
---Então toca aqui , estendi a mão pondo fim à briga .
---Nós somos dois sem vergonha mesmo , hein ?
PROVOCADORES
Havia aqueles caras perversos que gostavam de provocar brigas . Chegavam sem mais nem menos e estimulava uma luta entre dois meninos sem o menor motivo , só de maldade e pra ver quem vencia. Quem corresse da raia , fazia feio e ficava difamado. Uma das táticas usadas era colocar a mão estendida na frente do rosto dos dois futuros contendores e dizer que aquele que fosse mais machão que cuspisse na mão . Na hora da cusparada o provocador tirava a mão e o cuspe batia no rosto do outro . Ai não tinha mais jeito , o pau quebrava.
Uma vez lá perto do campo , um desses caras maus e chatos deu de provocar uma briga entre o João Beijo , filho do Seu Juca e eu . Como sempre fui pacato , comecei a me esquivar dizendo que não tava a fim de brigar , que não tinha motivo e que o João era meu amigo .
---Você ta é com medo , cagão. Falou o mau elemento .
---Ôh João, reage cara , vamos brigar , falei.
---Eu não sou de briga não , respondeu ele choramingando.
Uma das poucas brigas em que me meti foi com o Maurício do Zé do Oscar, no auditório do grupo . Sem mais nem menos começamos a disputar lugar na fila e a nos peitar igual galo de briga . Em seguida passamos a nos golpear com a pasta de objetos . Sabem aquelas pastas de curvim (couro sintético ) com fecho que era muito usada naquela época ? Pois é, foi pastada a torto e a direito .
BRIGAS MEMORÁVEIS
Havia aqueles caras que todo dia se metia numa briguinha. Parecia que era de lei , todo dia depois da aula tinha algum arranca rabo . Os mais bravos escolhiam suas vítimas que invariavelmente apanhavam ou corriam. O engraçado é que os valentões não se enfrentavam e não cruzavam ocaminho do outro . Gostaria de ter visto uma luta do tipo Julinho do Bahia versus Rocha Grande . Seria o combate do ano . Os irmão Rocha eram três . O Rochinha que arranjava confusão , e o Rocha médio e o Rochão que garantiam.
Na nossa sala havia uma briga que parecia eterna . O Robson do seu Irineu de Araújo Porto e o Marquinho do Artur Guedes, todo santo dia saiam na porrada . Não se falavam mas bastava se olharem para se atracarem: no recreio , na fila ou mesmo dentro da sala . Quando esqueciam alguém lembrava:
---Ué, o Marquinho mais o Robson não brigaram hoje ainda !
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