Presença forte, o poder feminino
O comando estava com elas
autora: Heloisa Azevedo Costa
Se ainda hoje, século XXI, a mulher tem de lutar para ver garantidos os seus direitos, imagina há 100 ou 150 anos, na segunda metade de 1800, quando a exclusividade do mando era masculina e inquestionável. Nesse período viveram, em São Francisco do Glória, duas mulheres que décadas após sua morte ainda eram freqüentemente lembradas. E elas deixaram grande descendência franciscana. Suas histórias são, às vezes, cômicas, às vezes, de bravura, às vezes, de ternura. Mas todas elas mostram a garra e a têmpera das duas figuras. Mulheres fortes é o que não falta por nossas bandas, mas as duas foram pioneiras.
Vó Memema
De saia balão, tipo de vestimenta bem volumosa de saias sobrepostas. Essa descrição é de quem bem se lembra da figura de Filomena Nogueira. Natural de São Bartolomeu, perto de Ouro Preto, veio para São Francisco do Glória com vários familiares. Conta-se que Filomena se casou três vezes e com três irmãos da família Carlos Pereira: João, Sebastião e Antonio. Segundo minha avó Eborina Pedrosa, D. Filomena, ou tia Memena, era concunhada do Tenente Estevam Rodrigues Pedrosa.
Uma história relatada em tom cômico mas que mostra a praticidade dessa mulher, que com as dificuldades de seu tempo e os recursos do meio rural tinha de prover sua família, passou-se por ocasião da morte de um de seus maridos. Na manhã do falecimento, ocorrido de madrugada ou de manhãzinha, D. Filomena teria, com sua forma peculiar de ver a vida e a urgência da labuta na roça, chamado à família e os empregados ao trabalho dizendo que naquele momento todos teriam, inclusive ela, de cuidar da propriedade, tirar o leite, lavrar a terra, etc. E no seu estilo direto foi dizendo: Agora é hora de trabalhar porque de tarde é só chorar.
Donana do Tanque
Imagine sair de São João Del Rei, uma das maiores cidades da Província, perto da capital Ouro Preto, e radicar-se em São Francisco do Glória. Esse caminho foi percorrido por Anna Esméria Pereira Neves, Pio de Abreu do primeiro casamento e Moreira do segundo. Na Fazenda do Tanque Donana fez seu reino. Reino porque ali ela mandava, desmandava e comandava. A imagem de Donana do Tanque perpassa as gerações dos Pio de Abreu e dos Moreira. E há sempre um certo envaidecer e encantamento ao se falar dela.
Desde pequena ouço causos de vovó Donana, mas certa vez, surpreenderam-me a veemência e o orgulho do narrador. Acompanhando meu avô José Martins de Abreu, neto de Donana, estávamos eu e meu irmão Júlio, a caminho de Vieiras, que meu avô teimava em chamar de Babilônia. O tempo seco deixava a estrada fofa de tanto pó. O mês anterior fora de muita chuva e estávamos em pleno veranico. O trajeto tornava-se mais longo pelo pouco movimento da estrada. Vez ou outra, um cavaleiro e raramente uma charrete. E no caminho, um avô meio filósofo e dois cansados netos.
Para distrair-nos no trajeto poeirento de um dia quente e ensolarado de janeiro de 1964 ou 65, vovô ia contando suas histórias, mais ou menos assim: Aqui fulano divide terras com sicrano; lá começam as terras do beltrano; mais adiante aconteceu tal fato. E as histórias iam se desenrolando e a gente caminhando. Ao passarmos da ponte dos Pedros, sua voz muda de tom e sai emocionada agora estamos no Reino do Tanque. Não foram essas exatamente as suas palavras mas foi o que depreendi do seu olhar e do relato de suas lembranças.
Anos mais tarde, causos da Donana do Tanque foram parte do livro de memórias O menino da Mata e seu cão Piloto, do escritor Vivaldi Moreira, neto dela. Também Paulo Fernando Moreira, um de seus bisnetos, contou histórias hilárias de Donana., no site sobre a fazenda do Tanque.
Alguns Esclarecimentos.
Para que eu tivesse noção da descendência dessas duas grandes senhoras franciscanas Heloísa me enviou uma relação de parentes seus que eu conheço ou conhecí. É interessante para que aqueles mais jovens como eu saibam de quem se trata.
João.
Dona Filomena Pereira
Mãe do Sr. Zé Canoa
Avó do Sr. Bahia, avó, por adoção, do Sr. Antonio Vecchia, Avó da D. Tonica e D. Nair Eisenlhor,
Avó do Sr. Chico Patrocínio, Tatão Patrocínio, etc.
Avó do Sr. Agenor da Silva Pinto,
Bisavó da Levinda, da Maria Emília Eisenhlor Moreira, etc.
Donana do Tanque
Avó do Sr. Manoel Camilo Pedrosa, José Camilo Pedrosa, Sr. Diquinho, etc
Avó do Sr. Totônio Moreira, Vasco Moreira, Nascimento Moreira
Avó do Neneco Moreira, Quinzim Moreira, Geraldo Moreira, etc
Bisavó de Ruth Azevedo, Maria do Carmo Vecchia, D. Belinha do Xadinho, Sr. Joaquim do Sidó, Ana Maria do ToTônio Moreira, etc
Bisavó de José Ramos Pedrosa, Marlene, Marinho, etc.
Bisavó do Sr. Zico Pedrosa, Estevão Pedrosa, Dona Fia, etc.
Bisavó da Dona Moreninha (João da Dona Amora), etc. .
Muito interessante, não?
Nenhum comentário:
Postar um comentário