sexta-feira, 23 de março de 2012

RENEGANDO AS ORIGENS?

RENEGANDO AS ORIGENS?
João Eduardo

A crônica do Alexandre, Jeito Mineiro,  me fez lembrar uma situação que passei também em Belzonte quando estava fazendo o curso de formação da PRF, em 1994. Nessa época andava muito de ônibus em BH, pois num dia  tinha aula no bairro industrial em Contagem, e noutro dia era no CPOR, na avenida Antonio Carlos na Pampulha, e estava hospedado numa pensão no Calafate, próximo ao Barro Preto.
O mineiro da capital não é muito diferente do interiorano, é fácil puxar assunto e engrenar conversa. Nesse vai e vem constante pela capital mineira conversei com muitas pessoas nos pontos de ônibus, nas lanchonetes, etc. Sempre que me perguntavam de onde eu era, e eu dizia o nome de minha cidade, invariavelmente faziam cara de espanto e perguntavam: "onde que fica isso?" Eu tentava explicar com toda a paciência, e a cara de espanto se mudava para de deboche, mais ou menos como acontecia com o Alexandre.
Houve um domingo em que não fomos liberados devido a alguns problemas que aconteceram no curso, ficamos de castigo e fomos mandados para a pista a fim de trabalhar na fiscalização de veículos. Ficamos todos muito chateados, e eu tinha que me apresentar às sete horas da manhã no km 15 da BR 381, saída para Monlevade. Então madruguei em pleno domingo, sozinho na pensão uma vez que os outros hospedes de folga tinham ido visitas os familiares, e fui par o ponto de ônibus, carrancudo.
Na situação em que me encontrava, a última coisa que eu queria era conversar com alguém, mas foi exatamente o que aconteceu. Estava no ponto um senhor baixo e animado que logo puxou assunto e começou a tagarelar. Eu respondia às suas indagações de má vontade, nonossilábico, mas ele não se dava por vencido e continuava a falar e interrogar. Para meu desespero ele tomou o mesmo ônibus que eu. Sentei-me mais à frente ao lado de outra pessoa, ele veio ficou de pé do meu lado e fez a pergunta que eu mais temia:
--De onde você é?
E eu cansado de ter que explicar onde fica São Francisco do Glória e ser ironizado pelos outros, respondi quase que automaticamente:
__Sou de Muriaé.
__Pois eu sou de uma cidade alí perto. Sou de São Francisco do Glória.
Eu evidentemente caí o queixo, fiquei pasmo e me levantei para conversar. Aí o interesse passou a ser meu também. Sentei-me ao seu lado e expliquei que também era de São Francisco e porque havia dito que era de Muriaé. Tratava-se de um irmão do Saturnino Moreira, tão gozador quanto, e a conversa foi boa a valer.
Depois de algum tempo o dito cujo foi a São Francisco e chegando na farmácia do Ludolfo me reconheceu numa fotografia, e falou:
--Esse sujeito aqui é um ingrato, metido, convencido. Vai para Belzonte e tem vergonha de falar que é de São Francisco, fica falando que é de Muriaé.
Enfim, fez a minha caveira completa com os amigos. A situação só não ficou mais constrangedora porque eu mesmo já havia contado a historia para todo mundo em São Chico.
Lembro-me desse dia com muita clareza, tanto por causa desse fato inusitado, como porque foi naquele domingo que aconteceu o acidente que vitimou Airton Senna.
Outro dia que me recordo foi quando vi no jornal que haveria um show com Zé Geraldo no Jequitibar. Então liguei para o Alexandre e o convidei para assistir. Ele saiu da faculdade e foi comigo. Resultado: fomos os últimos a sair, assim como o Zé que fez o show. Tiveram que pedir licença para fechar.

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