sexta-feira, 23 de março de 2012

JEITO MINEIRO

Essa crônica foi escrita pelo Alexandre Abreu e publicada no jornal Folha da Mata do jornalista Zé do Chiquito. Saiu também no jornal O Estado de Minas, e foi lida pelo Chico do Quiqui lá em Ipatinga. O Chico lembrou-se do fato e me passou um e-mail falando a respeito. Então solicitei ao Alexandre e ele me enviou. Tenho certeza de que vão gostar muito, como sempre o Arlec foi muito inspirado.

Jeito Mineiro
                                                        Alexandre de Abreu Azevedo
         Eu morava  em BH, assim  abreviada a capital pela maioria dos mineiros, para não serem flagrados ao falar “belzonte”.
Trabalhava e estudava, próximo a escola sempre o pessoal se reunia após as aulas para colocar a conversa em dia, falar das referências, de futebol, de filmes, das pessoas e filosofar sobre tudo e todos. Assuntos polêmicos ou não, de grande ou nenhuma importância, tudo era comentado, falado, criticado, discutido. A polêmica ou o assunto poderá começar da indagação mais complexa até uma simples pergunta: De onde você é?
            Lembro-me deste dia, foi divertido, eu ouvia atentamente a resposta e o começo de tudo:
_ De Contagem. Respondeu imediatamente.
_ Contagem das Abóboras? Perguntou novamente com sarcasmo.
_ Sim... Uma das cidades mais industrializadas e que contribui muito  para a arrecadação do Estado. Comentou o outro cheio de orgulho.
            Outros ouvindo também começavam a dizer suas origens , ressaltando a importância de sua ilustre terra natal.
            E apareceram cidades de todos os cantos de Minas, primeiramente as de importância econômica e histórica.
            _ Eu sou de Juiz de Fora, a Manchester Mineira, pólo cultural e econômico da Zona da Mata, etc.
            _Eu sou de Patos de Minas, terra do milho, etc.
            _ Eu sou de Caeté, berço da Guerra dos Emboadas. Achei engraçado, pois guerra agora tinha um “berço” e continuava ouvindo e aprendendo com tantas  e divertidas informações culturais. Depois vieram as cidades de filhos ilustres, ressaltados e louvados por seus extremados conterrâneos:
            _ Eu sou da terra do Pelé...
            _ Eu sou da terra do Ziraldo...
            _ Eu sou da terra de Ary Barroso.
            _ Eu sou da terra do Ataulfo Alves...
            Vieram as cidades de importância geográfica, aparecendo algumas cidades  menores:
            _ Eu sou  de São Roque de Minas, onde está localizada  a nascente do Rio São Francisco – e enfatizava  o rio da Unidade Nacional.
            Alguns falavam também da determinados políticos que nada engrandeciam cidade alguma.
            Alheios, aqueles que eram de Belo Horizonte mantinham-se quietos, com um certo ar de superioridade, como se dissessem “ Eu sou da Capital, a melhor e mais importante cidade”... Ironizavam as cidades, pelo sotaque, pela ligação inevitável a outros estados, ou pelo simples fato de não ter projeção no estado. Incapazes de mencionar a pequena cidade ou arraial, terra natal de seus pais ou avós, onde passavam as férias, onde como dizia a música de Nelson Ângelo, havia “bica no quintal e eles respiravam o vento  até virar noite e os velhos falavam coisas desta vida”,,, “ tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga-rosa, tinha o sol da manhã e na despedida tios na varanda”.
            Eram como sociólogos que se esqueceram de repente do “social”, pessoas esquecidas daquilo que viveram. Em outros locais ou em outras situações poderiam até vir a falar com orgulho da terra de seus avós, das férias, da infância, mas aquele não era o momento adequado, se a cidade não fosse ou tivesse alguma importância econômica ou histórica, etc...
            É inacreditável como o ser humano é omisso em pequenas situações e muda de discurso , postura ou posição desde situações mais simples até as mais difíceis. A posição não é formada por seus princípios ou idéias e sim, com a condição do ambiente. Naquele instante área de conhecimento dos nativos se limitavam ao interior da Avenida do Contorno, para alguns o limite era um pouco maior, se limitava ao anel rodoviário.
Pensei na minha cidade, nas pessoas, ninguém ilustre, nenhum Milton, Carlos ou Chico, nenhum fato histórico importante, beleza natural existe, mas nada que tenha sido tombado em parque como o Peruaçu. O Rio Doce, O Ibitipoca ou o Caparáo.
Pensei também no Zezinho, um homem quieto, trabalhador (ótimo marceneiro), respeitado e querido por todos na cidade , incapaz de atos impensados, às vezes no fim da tarde subia no alto da serra, ficava de cócoras e sossegado pitava o cigarro. Quando fui interrompido:
            _ E você, de onde vem?
            _ De São  Francisco do Glória e acrescentei esclarecendo a pouca importância econômica e histórica. É um município novo e pequeno.
            E vieram as brincadeiras em tom carregado de bastante ironia:
            _ É cidade de primeira, você passa a primeira e ela já passou.
            _ Deve ser daquelas que a placa de “Bem Vindo” está a dez metros daquela de “Volte Sempre”.
            Será que lá tem placas?
            _ O que tem lá? Perguntaram curiosos em coro.
            _ Lá tem mineiro. Respondi rápido.
_ Uai, isso toda cidade tem. Afirmaram em conjunto.
            _ Mineiro de Verdade? Aproveitando o silêncio acrescentei: Mineiro de Verdade não se gaba de suas vantagens. Mineiro de Verdade é quieto, mas revolucionário. Mineiro é sábio e atento em sua quietude, é sarcástico e irônico em sua singeleza e simplicidade, contundente e direto em colocações simples e raras. E completei Ser Mineiro é um jeito de ser, por isso há pessoas que nasceram no entro do Estado  e são mineiras por uma simples questão geográfica ou histórica, como foi falado a todo momento, mas não tem o jeito mineiro.
            _ Este jeito mineiro não existe. Disseram alguns.
            _ È, isso é folclore, Muitos afirmaram.
            _ É lenda. Concluíram.
_ Pois é, na minha cidade ainda tem muito.
E de repente os ânimos se acalmaram, as pessoas desanimaram. o “papo” acabou. A exaltação às grandes cidades também, muitas foram embora e eu repetia as palavras da música.
-Ainda é cedo. E eu só queria, sem ferir ninguém, falar da minha importante pequena cidade. 

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