sexta-feira, 23 de março de 2012

PRESENÇA CATÓLICA EM SÃO FRANCISCO DO GLÓRIA

PRESENÇA CATÓLICA EM SÃO FRANCISCO DO GLÓRIA

Heloísa Azevedo Costa

Padre Joaquim Cardoso

Chefe político por excelência


A rua vai e volta, pois, durante muitos anos,  acabava na propriedade da família de Geraldo Gomes. E  pouca gente se refere à ela pelo seu devido nome: rua Padre Joaquim Cardoso. Quem é essa figura que virou nome de rua?
Padre Joaquim Cardoso ficou em  São Francisco do Glória, possivelmente entre a última década do século XIX e a primeira do século XX. Numa época em que o poder da Igreja Católica era materializado na figura de seus representantes locais, não raro, essas representações estavam aliadas ao poder terreno das oligarquias. Padre Joaquim Cardoso não foi exceção. A história não-oficial  registra que o padre, amigo do coronel Francisco Novaes, político influente da região de Carangola, mais precisamente de Faria Lemos,  personificava o poder do coronel nas terras franciscanas. O quenão diminui sua parcela na formação política e religiosa dos cidadãos que conviveram com ele.
O livro “A  Masorca”, de Rodrigo Baptista Martins,  que relata o domínio da oligarquia cafeeira na região de Carangola no final do século XIX, ao fazer referência  às eleições municipais do ano de 1897 nas quais os situacionistas, como era o caso do coronel Novaes, ligados ao governoestadual, foram derrotados, traz a seguinte nota de pé de página:
“(3) Um artigo assinado por Álvaro Moreira Barros Oliveira Lima, publicado no jornal O Paiz, de 11 de setembro de 1897, depois de anunciar os nomes dos candidatos vitoriosos na chapa da oposição nas eleições municipais de 1° de setembro de 1897, ..., informa: ‘E releva notar que de todosos recursos lançaram  mão os adeptos do governo municipal para nos amendrontar, constituindo exceção única o prestigiosíssimo e honrado chefe da freguesia de S.Francisco do Glória, vigário Joaquim Rodrigues Cardoso, que, sem uma só ameaça, nem um só capanga, nos derrotou por muito grandemaioria’ (...) ‘É que chefes da estatura moral do referido sacerdote cativam os próprios adversários, os quais, em vez de se sentirem amesquinhados diante da clava de seu poder, curvam-se, genuflexos e reverentes, ante a sua enorme força, conquistada a custa de ininterruptos serviços à causa dopovo, que também constitue a nossa exclusiva preocupação.’  ...sempre situacionistas, os padres eram aliados natos dos coronéis, sendo porém, o seu poder político inferior aos destes, como adiante se verá.”

Padre Bruno

Padre Coragem – fé e defesa da religião 


“Coragem”. A palavra de incentivo, uma batida  no ombro e um largo sorriso formavam seu cumprimento. Era uma saudação tão peculiar que muitos a ele se referiam como “padre coragem”. De temperamento extrovertido, alegre  e dinâmico, padre Bruno, ao mesmo tempo que conquistava asimpatia dos cidadãos franciscanos, marcava sua presença de autoridade católica antes do advento do ecumenismo que preza o entendimento e a amizade entre as religiões cristãs. Veemente em suas posições, chegando muitas vezes à intolerância, padre Bruno é também lembrado por suas calorosasdiscussões com o pastor protestante João Alves, não raro, presenciadas pelo público na praça. A disputa era tão grande  e as acusações chegaram a tal proporção que foi preciso a intervenção das autoridades. A irmã Maria das Graças Gonçalves, superiora das Congregação Graciana fundada porpadre Bruno,  conta que, em certo momento,  o bispo de Caratinga, Dom João Cavati,  pediu a ação do governo federal em requerimento direto ao presidente Getúlio Vargas. Por intermédio do Ministro da Justiça e do Governador do Estado a solicitação chegou ao comando da Polícia Militar. Aanimosidade  entre padre e pastor fez  com que este vendesse seus bens e se mudasse da cidade
Esses são traços da personalidade do padre Bruno Conrado List. Outras marcas suas são a cultura e  o grande testemunho de fé. Austríaco de nascimento, padre Bruno ordena-se aos 26 anos após estudos de filosofia na Alemanha. Doutor em Direito Canônico e Teologia pela UniversidadeGregoriana em Roma, padre Bruno  vem para o Brasil  em 1943  e três anos depois chega a São Francisco do Glória  e ai fica até 1954.  


 “O instituto” – catequese e formação escolar 

Numa época de escassez de sacerdotes, Dom Cavati  via que o ensino e divulgação da doutrina cristã nas comunidades do interior seriam bem sucedidos se orientados  por  catequistas sob o comando de associações católicas. Essa visão do bispo logo recebeu a adesão de padre Bruno que  aela acrescentou outra finalidade: escola com internato para facilitar o acesso à formação escolar de jovens de ambos os sexos, oriundos do meio rural. Assim em 19 de março de 1947 foi inaugurado o Instituto Nossa Senhora das Graças que passou a ser residência de um grupo de catequistas. Ogrande sobrado ficava no final da rua lateral da igreja e tinha sido comprado do casal  José Carlos Pereira e Maria Costa Pereira. 
Mas os objetivos e o trabalho de padre Bruno só se concretizariam com a dedicação  de um grupo de jovens franciscanas – Rosa da Silveira Costa, Maria Aparecida Santiago, Germesina de Oliveira, Carmem Portes, Maria Pereira do Vale e Martha Costa.  Para algumas delas, essa foi aprincipal causa pela qual trabalharam e que defenderam durante suas vidas.      
Segundo a superiora da Congregação das Missionárias de Nossa Senhora das Graças a obra de padre Bruno “ tinha o apoio das  famílias tradicionais da cidade, os Laviola, os Ricardo, os Rodrigues, os Canoa e outras”. A ação do Instituto cresce na cidade. Também são criadas escolasparoquiais nas comunidades rurais para alfabetização e catequese, tanto de adultos como de crianças. 
No ano de 1954, divergência com Dom Cavati sobre a condução do Instituto leva à saída do padre da cidade. Padre Bruno vai para o Rio Grande do Sul e a irmandade das gracianas  o acompanha. Com o regresso de padre Bruno a Europa, as co-fundadoras do “Instituto”, irmãs Rosa Costa e Aparecida Santiago,  que tinham ido para o sul, retornam a primeira sede da Congregação em agosto de 1955, acompanhadas de toda a irmandade graciana. A partir daí, o Instituto foi organizado de acordo com as normas canônicas e em 1979 foi reconhecido pela Santa Sé. Hoje a Congregação das Missionárias de Nossa Senhora das Graças está presente em escolas, asilos e creches e nas paróquias da diocese de Caratinga e arquidioceses de Mariana e Belo Horizonte.
O prédio que abrigou o “instituto” não mais existe. Foi parcialmente demolido  em meados dos anos 50. Suas “ruínas”  ficaram expostas por uns vinte anos.  E tinham o gosto amargo do retrocesso. No interior do terreno, quase uma chácara,  ficou apenas a casa onde padre Bruno residiu commóveis e vasilhas usados por ele. Em  1996, junto a casa  foi construída uma capela do Santíssimo.

Irmã Rosa

Integrante do primeiro grupo de catequistas  do Instituto, por sua firmeza  e empenho na condução e organização da irmandade das gracianas, irmã Rosa Costa é tida como co-fundadora do Instituto. Assumiu a direção da escola do Instituto que a princípio ficara a cargo de dona Pequita (Germesina de Oliveira), professora na escola estadual que não pode se dedicar exclusivamente ao instituto como queria padre Bruno.   A liderança de irmã Rosa Costa junto a Congregação das gracianas  se estendeu por 44 anos.
A franciscana Rosa da Silveira Costa foi a primeira dos treze filhos de Luis Dias Costa e Maria da Conceição Silveira Martins. Nasceu na Fazenda da Gironda em 18 de janeiro de 1923 e faleceu no dia 28 de abril de 1991. Sua vida de dedicação à religião enriquece a história  da cidade.
Três Irmãs da Família Costa que se tornaram religiosas.

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