sexta-feira, 23 de março de 2012

HUMORISTAS FRANCISCANOS 27/02/2004

HUMORISTAS FRANCISCANOS  27/02/2004


João Eduardo Ornelas
São Francisco do Glória é uma cidade pródiga em pessoas cômicas. Muitos franciscanos são verdadeiros comediantes, humoristas, imitadores, contadores de causos e piadas. É comum vê-se na cidade grupinhos reunidos nos botecos ou nas esquinas, as pessoas arrebentando de dar risadas, e no meio do grupo um desses gaiatos atraindo a atenção com alguma história ou imitação do momento.
 São inúmeros os representantes dessa categoria, mas quero citar alguns, talvez os mais populares.
 O Saturnino Moreira além de um grande gozador, sempre bem humorado e com tiradas engraçadas, é também talentoso em algumas imitações. Não somente imita as personalidades como cria diálogos fictícios pra lá de engraçados. Quem quiser ter uma amostra é só pedir pra ele reproduzir aconversa ocorrida no céu entre o Ubaldino, o Vindilino e o João Ricardo. O assunto? Política municipal, evidentemente. É hilário.
 O Teca  Pedrosa talvez seja o imitador mais perfeito e famoso de São Chico. Entre suas pérolas estão as imitações do Geraldo Moreira e do Nenecão Moreira (não somente  a voz, mas os trejeitos e a fisionomia). Outras de suas imitações mais solicitadas estão  o Braz Dentista, o falecido Dico Mesquita, o ex-deputado Juarez Hoskem, o Faul, locutor de Carangola, o Padre Vitor da Rádio Aparecida e muitos outros. Na verdade acho que ele imita qualquer um.
 A relação de contadores e inventores de histórias e/ou estórias também e extensa. O Irineu do Bahia é um da lista que desfalcou o time com sua ida para o outro lado. O Leno é um grande contador de causos, mas já teve dias melhores. Parece que a vida de casado tornou-o menos criativo, oumenos interessado nas histórias do cotidiano franciscano.
O grande campeão neste particular é o Zé do Jó. Pelo menos a cada semana ele vem com  uma nova, e sempre de matar de rir. Algumas apimentadas, outras cheias de segundas intenções e malícias, sendo seu tema predileto, a política. Exatamente por isso, a maioria é impublicável, pois poderiaofender alguém. Falar de forma engraçada, é uma coisa, a pessoa fica sem graça mas até aceita. Escrever e publicar é o outra coisa bem mais complicado e delicado, sendo preciso medir muito bem as palavras.

ALGUMAS HISTÓRIAS E ESTÓRIAS:
 LENO:
 Um Quilo de carne por dia
 Naqueles tempos de carestia e inflação elevada, em que os comerciantes seguravam a mercadoria par poder remarcar e aumentar os lucros, o Sr. Totônio Moreira vivia reclamando de tudo e de todos: comerciantes, autoridades, governo, meios de comunicação, etc. Seu ponto de desabafo erao bar da rodoviária de propriedade do Leno, local freqüentado por boa parte da cidade e várias figuras exóticas, sendo uma delas o Zé Rumano, sempre bêbado e enchendo o saco dos outros. Daí que o Zé Rumano e o Sr. Totônio sempre se encontravam no bar do Leno, e este sempre se irritava com achatice daquele, tido como um  bêbado inconveniente.
 Certa ocasião, o grande vilão do custo de vida do brasileiro estava sendo o preço absurdo da carne. Seu Totônio inconformado com a situação reclamava a valer:
--isso é um a absurdo, está ficando impossível comer carne. Esse pessoal cobra o que quer. Esse governo não toma uma atitude. Assim onde vamos parar?
 O Leno então resolve tirar um sarro com o seu Totônio e diz:
--Engraçado Seu Totônio, com toda essa inflação, essa falta de dinheiro, o senhor acredita que o Zé Rumano consegue comer um quilo de carne por dia?
--É impossível, eu não acredito, só você mesmo pra sair com uma dessa, francamente.
--Mas eu tô te falando que o Zé Rumano consegue comer um quilo de carne por dia e come. Até eu admirei, mas é verdade.
 Seu Totônio não se conformava, e a todos  que chegavam no bar, dizia:
--Olha só o que o Leno esta dizendo, que o Zé Rumano come um quilo de carne por dia. Tem cabimento? Ele não dá conta nem de pagar as pingas que bebe, imagina a carne nesse preço?
 E o Leno reafirmava:
--É verdade, eu garanto. Com toda essa crise e o Zé Rumano consegue comer um quilo de carne por dia.
 Seu Totônio cada vez mais nervoso, não agüentando mais ouvir tanto desvario sai e vai pra casa. Retorna à tarde, o bar cheio, e dirige-se ao Leno.
--Leno, deixa de lorotas, explique essa historia do Zé Rumano direito que eu não sou idiota de engolir essa.
 E o Leno responde:
--Seu Totônio, o que foi que eu falei? Que o Zé Rumano consegue comer um quilo de carne por dia não foi?
--Foi.
--Pois é, ele realmente consegue, e só não come porque não tem dinheiro para comprar, mas que consegue, consegue. É só dar pra ele.
 E virando para o Zé Rumano que se encontrava no bar já trêbado àquela hora:
--Consegue ou não consegue Zé Rumano?
--E mole pra mim, me dá um quilo por dia pra ver. Que tirar a prova seu Totônio, é só comprar a carne. Tem que ter uma pinguinha pra ajudar, mas eu consigo.
Os ocupantes do bar caem na gargalhada, e Seu Totônio sem graça repreende ao Leno:
--È Leno, você é muito moleque. Só eu mesmo pra cair nas suas conversas.

Não tem onde por o dedo

 No bar do Leno se reuniam também os negociantes de carros e muitos negócios eram realizados ou discutidos ali. Para definir um bom carro, costumava-se dizer que o mesmo não tinha onde por um dedo que não estivesse bom.
 O Leno como sempre, captando tudo o que era dito:
--O carro é bom?
--Não tem onde por um dedo.
--Então me interessa.
 Foi questão de tempo até que o dono do bar anunciasse um carro para vender, uma verdadeira pechincha. Tratava-se de um gol 86, que não tinha onde por um dedo. O proprietário vendia por 5 mil cruzeiros por motivo de aperto financeiro. A noticia logo correu e choveram interessados, poisum carro como o anunciado valia no mercado pelo menos 7 mil cruzeiros.
 --Como é o carro, Leno?
--Não tem onde por o dedo.
 E assim foram surgindo os interessados, na maioria corretores  que saíam à busca do cliente. A todo momento vinha alguém informar sobre o carro e o Leno respondia sério:
--Não, o carro não tem onde por o dedo.
 Quando apareceu o cliente disposto a adquirir o veículo, aconteceu a surpresa. Veio a pergunta:
--Qual é o estado do carro?
--É Minas Gerais, uai.
--Não, eu tô falando estado de conservação.
--Ah, bom, o carro tá ruim pra daná, um verdadeiro fubá.
--Mas como pode, a informação que tive é que o carro não tem onde por o dedo.
--De fato, não tem onde por o dedo... que não esteja amassado, enferrujado, furado, empenado, quebrado, trincado. Uma merda.


ZÉ DO JÓ

 Operação de hemorróidas
 Conta o historiador Zé do Jó que numa das eleições municipais acontecidas em São Chico, uma senhora reivindicava junto aos candidatos a realização de uma cirurgia na vesícula. Como o lema de grande parte do eleitorado é levar vantagem, não importando muito como, essa senhora nãodesgrudava dos comitês eleitorais, hora num, hora noutro tentando alcançar seu objetivo de se submeter à cirurgia.
 --Não agüento  mais, desde a eleição passada que venho tentando conseguir uma operação, e tá todo mundo me enrolando. Esse ano saí de qualquer maneira, nem que eu tenha que mudar aqui pro birô eleitoral. Enquanto não sair, eu não sossego.
 E todos os dias lá estava a Dona Madalena com a bolsa, a papelada, pronta para ser internada e operada. E todos os dias era enrolada, voltava pra casa na roça, frustrada e resmungando. Até que um dia  ela está sentada num banco no birô eleitoral pronta para mais um dia de vigília, quandopára a ambulância na porta e o motorista pergunta:
--Quem é a mulher que vai ser operada?
Ela olha para um lado e para o outro e percebe que está sozinha na sala já que a recepcionista fora ao banheiro. Mais que depressa, abre um sorriso e diz:
--Sou eu.
O motorista a observa com a documentação e a bolsa nas mãos e se convence:
--Vamos rápido que já estamos atrazados.
 Chegando ao hospital o motorista a encaminha para a recepção e vai para a rua cuidar das encomendas.  A recepcionista percebe então que a paciente que ali estava não era a mesma que era esperada para se submeter a uma cirurgia de hemorróidas.
--Dona Madalena, a cirurgia está marcada para a Dona Josefa, e é de hemorróidas. A senhora tem aqui exames da vesícula e por sinal são bem antigos.
--Decerto, tem tanto tempo que tão me enrolando  que o papel do exame tá até encardido, coitado. Mas pode me operar no lugar dessa tal de Josefa que ela não vem não, eu tô na frente dela pra mais de légua.
--Mas Dona Madalena, não é assim que a coisa funciona, a equipe está preparada para a Dona Josefa.
--Desaforo! Duvido que ela tem mais votos do que eu. Lá em casa são oito votos. E olha que eu tô tentando com sacrifício há tanto tempo, todo dia venho à pé pra rua ficar na cola desses políticos tratantes. E se eu não operar antes da eleição já era.
 Nesse momento chega uma ambulância cheia de pessoas acidentadas e a recepção vira um pandemônio. A recepcionista pede para Dona Madalena esperar e vai em auxílio dos enfermeiros. Dona Madalena vai sorrateiramente hospital adentro até que chega próximo ao centro cirúrgico. Umaporta se abre e saem dois enfermeiros com uma maca e um deles pergunta:
--Quem é  a mulher de São Francisco do Glória que vai ser  operada?
--Sou eu mesmo, responde dona Madalena nem acreditando direito.
 É então colocada na maca, levada para a sala de cirurgia onde é anestesiada e submetida a uma operação de hemorróidas.
 Mais tarde a moça da recepção liga  para o centro cirúrgico a informando que ligaram dizendo que a paciente de São Francisco, Dona Josefa não poderia comparecer devido a  um imprevisto.
--A paciente de São Francisco? Já foi operada, está passando bem e se encontra na sala de recuperação. A operação foi um sucesso.
 Foram ver então a Dona Madalena que estava deitada na recuperação. Ainda sob efeito da anestesia, dormia profundamente com um sorriso vitorioso estampado no rosto.
 Segundo o Zé do Jó, depois dessa operação de hemorróidas, dona Madalena nunca mais teve problema de vesícula, coluna, reumatismo ou qualquer outra coisa. Ficou curada de tudo de uma vez por todas. E feliz da vida.
E quando perguntavam pra ela:
--Dona Madalena, a senhora foi operada errada?
--Que isso meu fio,  eu tô é boa. Se eu soubesse que operar das morróida fosse tão bão, tinha feito há mais tempo.

A PAREDE DO CANDIDATO

 Havia um eterno candidato a vereador em São Chico que tentou várias vezes, mas nunca conseguiu ser eleito. Esforçava-se muito, visitava todo mundo, ficava confiante mas na hora H vinha a decepção.
O Zé  do Jó, nas rodas de conversa, começava como quem não queria nada, dizendo que estava muito apertado de serviço, que estava trabalhando em tal lugar, mas que depois iria para um outro serviço já tratado. E que passada a eleição teria como sempre que pintar a casa do referidocandidato,  que sempre dava uma trabalheira danada limpar todos aqueles riscos de carvão nas paredes.
--Carvão, que negocio é esse de carvão na parede? Perguntavam os outros curiosos.
--É que em toda eleição é a mesma coisa. Ele sai pedindo votos e cada promessa que recebe, faz um risco de carvão na parede para poder contabilizar. Na primeira vez tinha 580 riscos na parede. No segundo passou de 800. Agora eu já vi dizer que já passou dos 1000. Tem risco até na sala.
--Isso é conversa sua, como é que nunca vi falar nisso.
--É que ele não conta pra ninguém. Ele fica sem graça e só confia em mim para fazer a pintura. Afinal, com tanto risco e ele nunca passou dos 70 votos.
--Mas porque que ele só confia em você?
--Sei lá, deve ser porque eu sou discreto.

TECA

 Geraldo Moreira.
 Uma das melhores imitações que o Teca faz é do Geraldo Moreira. Certa vez, um bar próximo à casa do Geraldo estava usando um som ligado excessivamente alto. Não agüentando tanto barulho, Geraldo foi até lá e pagou geral, deu o maior esporro. O pessoal em nome do bom relacionamento desligou o som. Acontece que o Teca estava no local, e assim que o Geraldo saiu, começou a imitá-lo com perfeição repetindo as mesmas palavras. Impressionados com a semelhança, a turma decidiu gravar a fala do Teca e passar a fita para o Geraldo escutar.
Geraldo ficou sério, enrugou a testa e perguntou:
--Ah, seus desgraçados, com ordem de quem gravaram a minha voz?
 Outra fala do Geraldo Moreira que o Teca gosta de imitar, aconteceu numa procissão da semana santa. Um garoto na fila da procissão tropeçou numa pedra proferiu um  xingamento, sendo repreendido imediatamente pelo Geraldo:
--Menino desgraçado, para de xingar peste. Respeita Santa, diabo.

A Retirada do delegado.
 Numa ocasião foi nomeado um delegado de  polícia para a cidade, e cá chegando tomou partido para uma facção política local, justamente a que fazia oposição ao governo do estado. Como se diz, montou no burro do lado errado, já que devia obediência ao secretário de segurança publica,partidário do outro lado. Rapidamente foi solicitada e executada sua transferência para outra localidade.
O Teca então, imitando a voz fúnebre do locutor Faul, que durante muitos anos sonorizou festas em Carangola e região com a empresa  Faul Promoções, saiu com essa:
--O prefeito municipal, a Câmara de Vereadores, demais autoridades e todo o povo de São Francisco do Glória, agradece ao Senhor Zuta, a retirada do delegado.

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