sexta-feira, 23 de março de 2012

FUTEBOL FRANCISCANO

FUTEBOL 03/02/2004
João Eduardo Ornelas

Em todos os rincões do país, seja numa longínqua aldeia indígena, seja no Maracanã lotado, ou num campinho de várzea, o brasileiro demonstra sua paixão pelo futebol.  Desde criança gostei de assistir aos jogos no campo de São Francisco do Glória. Participava também de peladas, mas eraruim de dá dó. E não me iludia, prova disso é que nunca comprei uma chuteira pois achava que meu futebol (ou minha falta de futebol) não merecia. Nem mesmo quando  atuei pelo Jacaré, no inicio do time. No máximo adquiri alguns pares de Kichutes, que serviam para a bola, a escola e se apertasseaté para o sábado à noite.

Minha intenção  ao escrever este texto é exercitar meus insuspeitados talentos de comentarista e analista esportivo para relembrar alguns jogadores que assisti jogar e que se destacaram atuando pelos times de São Chico. Portanto remexendo nas prateleiras da memória busco lá atrás, desdeo antigo União Esporte Clube, alguns ídolos franciscanos de minha infância. Divido os jogadores em dois grupos distintos: geração  antiga, relativa aos jogadores que hoje se encontram na casa dos 50 anos de idade e acima; e geração atual englobando contemporâneos meus que estão entrando nosquarenta, e os mais jovens que vi jogar até o ano de 1994, quando então me mudei da cidade.


GERAÇÃO ANTIGA

ITAMAR: começando pelo começo, o gol, o goleiro mais marcante que pisou no gramado (na época estava mais para dês-gramado) franciscano foi sem dúvida o Itamar, que veio de Carangola onde jogava no Ypiranga. Suas belas defesas, cheias de pose faziam a torcida arrepiar. Era elegante,elástico, tinha uma técnica apurada e era também muito mascarado. Não era alto, talvez 1,75m mais ou menos, mas compensava com talento e boa colocação. Era tão exibicionista que costumava sair de lado numa bola fácil só para fazer uma bela ponte. Ás vezes ficava relaxado, parava de treinar, bebia muito e engolia uma série de frangos. Porém quando vinha um time de maior destaque jogar na cidade, interrompia a  bebedeira, treinava a semana toda e no domingo dava o seu show: fechava o gol. Aí depois do jogo entornava todas e catava marra. Gabava-se de haver sido profissional naFerroviária de Araraquara. Outra característica sua era gostar de usar um sapato branco.

TINOCO: um zagueiraço. Jogava também no meio e gostava do ataque, mas rendia todo o seu futebol era mesmo na zaga. Era simplesmente completo. Nas bolas altas ou rasteiras, na classe ou na raça não tinha pra ninguém. Sua classe era tamanha que não cortava os lances de cabeçasimplesmente a esmo, mas cabeceava  efetuando passes precisos para os companheiros. Nos seus melhores dias parava o time adversário. Teve potencial para ter sido profissional.

WANDERLI: Outro que era zagueiro. Era muito bom, cuidava muito da forma física, não tinha vícios e corria sozinho durante a semana.  Um futebol eficiente e simples. No inicio batia faltas muito bem, depois parece que perdeu esse dom, mas mesmo assim jogava muito.

IVAN: tinha uma intimidade incrível com a bola, do jeito que ela viesse, arredondava e colocava no chão. Seu grande defeito era a máscara, e querer jogar difícil. Era praticamente incapaz de tocar uma bola curta. Sempre queria alongar os passes, fazer lançamentos, e aí errava muito.Quando era chamada sua atenção e resolvia simplificar, seu futebol crescia. Com uma boa orientação na idade certa poderia ter sido profissional. Era baixinho mas subia de cabeça numa altura absurda.

ZÉ DO NEGO: era de Fervedouro como o Tinoco, jogava no meio e tinha um toque de bola refinado. Batia faltas com maestria. Parece mentira mas sua precisão era tanta que fazia a bola resvalar na barreira de propósito para pegar  o goleiro no contra-pé.

PARAÍBA: Já chegou em São Chico veterano. Era um atacante muito eficiente, jogava simples e não era de inventar. Foi um grande artilheiro, sendo sua maior arma o chute potente e certeiro à meia distancia. Se dominasse uma bola na meia lua e se posicionasse para chutar era gol na certa. Muitas vezes furou as redes e trincou as placas do muro atrás do gol com suas boladas. Protegia a bola usando muito bem o corpo já meio pesadão.

ZÉ WALDIR: era de Miradouro e irmão do Wanderli. O Zé Waldir era ponta esquerda no melhor estilo bailarino, tipo Joãozinho do Cruzeiro. Naquela época usava-se os pontas abertos e os duelos com os laterais. Zé Waldir tinha um futebol moleque que fazia a alegria da torcida. Driblavafácil, ia à linha de fundo e cruzava pra área. Jogou pouco tempo mas deixou sua marca.

CELSO: sempre jogou um arroz com feijão muito bem temperado, e mantinha regularidade. Era versátil e conseguia jogar em várias posições: lateral direito, meio campo ou centro avante.

JANDER: teve uma passagem pelo América Mineiro. Tinha muita raça e grande vigor físico. Era outro que jogava bem na lateral direita e no meio campo.

FERNANDO DO COCO: o famoso carregador de piano. Futebol simples que não aparecia, mas quando saía do jogo o time piorava.
BETINHO DO MERENTINO: Muito ouvi falar desse jogador franciscano que chegou a jogar no Volta Redonda e só não foi jogar no Flamengo por indisciplina. E sempre achei que era exagero. Dei a mão à palmatória quando o vi jogar, já veterano e obeso. Simplesmente caí o queixo. Como diz o Intrevado que estava ao meu lado: sabe tudo de bola.

GERAÇÃO ATUAL


CLEBER DO BAHIA: ao lado do Itamar o melhor goleiro da cidade. É outro que poderia ter sido profissional. Talentoso, esperto e técnico. Sem nunca ter recebido treinamento específico para goleiro, enquanto jogou com seriedade era sem dúvida o melhor da região. Recebeu vários convitespara jogar nas equipes de Muriaé e Carangola. Nunca aceitou.

MAURICIO HENRIQUE : considero ao lado do Tinoco o melhor zagueiro da cidade. Não tinha a categoria do primeiro, mas também se dava bem por cima e por baixo. E era de parar o time adversário sozinho também.

JOÃO RATÃO: outro bom zagueiro, basicamente clássico, no estilo Luizinho do Atlético Mineiro. Joga bonito, com estilo e é incapaz de dar uma botinada.

CLEBER DA AMORA: O craque da cidade. Jogando no meio campo foi um jogador completo. Armava, combatia e finalizava com precisão. O melhor jogador franciscano de sua geração, sem sombras de dúvidas.

REINALDO. Outro que é muito bom no meio campo, sendo seu único defeito os altos e baixos. Não mantêm uma regularidade, mas é muito talentoso. Nos seus melhores dias tomava conta do meio de campo.

CHIQUITINHO:  jogava no ataque e surgiu muito bem. Jogou no Jacaré e fez sucesso em dois campeonatos pela liga de Muriaé, a ponto de ficar conhecido na região. Enquanto esteve bem, era um atacante fulminante. Chutava bem com ambas as pernas, muito ligeiro e tinha bom drible. Suaboa performance porém durou pouco tempo, infelizmente.

A SELEÇÃO DOS MEUS TEMPOS:

Não poderia deixar de escalar a seleção franciscana, se não é a de todos os tempos, pelo menos é a dos meus tempos.
Vamos a ela:

Ø     Goleiro: ITAMAR seria o titular por tudo que representou para a posição, servindo inclusive de inspiração e modelo para os novos goleiros. Como substituto imediato o Cleber do Bahia. Imagino o que seria o Cleber treinado e orientado pelo Itamar.
Ø     Laterais: pela direita escalaria o JANDER  tendo como imediato o Celso. Pela esquerda não consigo me lembrar de outro nome senão do ZÉ ROMANINHO. Para reserva poderia ser o Adalberto Moreira  ou o Fernando Quirino. Noto que o futebol franciscano foi carente nessaposição. Outro que poderia ser relacionado é o Everaldo, genro de Irenito.
Ø     Zagueiros: na minha opinião tivemos grandes jogadores na posição, dificultando a escolha. Depois de matutar um pouco creio que minha zaga titular seria TINOCO E MAURICIO. Poderia ser Wanderli e Ratão que não mudaria muito, mas prefiro esses no banco como opção eescalar a muralha que citei primeiro.
Ø     Meio de Campo: o meio campo  titular de minha seleção seria formado por IVAN, CLEBER DA AMORA E ZÉ DO NEGO. Relacionaria como opções o Fernando do Coco e o Reinaldo. Como mais uma opção, o Celso ou Jander que poderiam ser deslocados da lateral para o meio.
Ø     Ataque: pela ponta direita dois baixinhos disputando a posição: JULIO, que tem a minha preferência, e Chico do Quito. No comando do ataque, o  titular PARAIBA, e seu genro Chiquitinho como substituto. Na esquerda, o ZE WALDIR, e o Wagner de Paula, que merecedestaque pela eficiência e regularidade.
Ø     Treinador: sem dúvidas, o  SR ITALIANO, o Zagalo franciscano.


JOGADORES DE CIDADES VIZINHAS:

Falando de futebol de nossa região não poderia deixar de lembrar o grande time de ALVORADA. Nunca mais um lugar tão pequeno será premiado com uma geração de jogadores tão bons.
O EIDER, jogava no meio e era o dono da bola. Explorava os espaços vazios do campo, distribuía as jogada e ditava o ritmo do jogo.
O ZÉ MAURO, era considerado uma grande estrela. Era atacante, mas depois que ficou bichado passou a jogar de volante.
O FIOLO era um zagueiro ao nível do Tinoco. Perdia pra ele nas jogadas mano a mano, na raça e na velocidade. Igualava-se no estilo e na categoria. Superava nas cobranças de falta.
Além desses três destaques, os demais atletas alvoradenses eram quase todos acima da média, como o Renato, o Laci, o Marquinho e outros mais. O que Alvorada nunca teve foi um goleiro à altura.

MIRADOURO

O destaque do time do AMA da geração antiga era o Jacaré. Da nova geração o grande craque foi o André do Beca, outro que desperdiçou seu talento.

FERVEDOURO

Além do Tinoco e Zé do Nego que jogavam no União,  outros jogadores de Fervedouro marcaram época. Os mais antigos comentam sobre o Artur, mas esse não vi jogar. Lembro-me do Zé Livete, do João Siqueira, do Vertão, do Ailton Mascate e do Nelson, que era goleiro. Todos esses tambémreforçavam o União eventualmente.
Da geração atual o grande craque fervedourense foi o Brechozinho. Lembro-me que ele estava jogando pelo Jacaré num campeonato da liga de Muriaé. Houve uma partida memorável contra o Gama de Carangola, no Estádio Ângelo Lazaroni. O time carangolense veio reforçado e contando queiria ganhar fácil mas Gersinho, Fabinho e companhia tiveram uma grande surpresa. O Brechozinho foi o dono do jogo e só não fez chover. O Jacaré venceu por 2 a 0 com dois gols do Chiquitinho, outro que jogou demais, ambos passes açucarados do infernal camisa 10 Brechozinho. E lá atrás umendiabrado Cleber do Bahia no gol pegando até mosquito. Foi sem dúvida um dos melhores jogos que assisti no nosso estádio.
Da geração atual de Fervedouro destaco  ainda o atacante Ronaldinho, filho do Tinoco. Cheguei a vê-lo jogar ainda muito menino e gostei do que vi. Dizem que atualmente seu futebol está arrasando. 

PEDRA DOURADA

O DOURADENSE da cidade de Pedra Dourada tinha dois grandes jogadores. Um goleiro quase tão bom quanto o Itamar que não me lembro o nome, e um tal de Bumba que jogava com a camisa 10 e era craque também.

O ZICO DA REGIÃO


O jogador GERSINHO, da cidade de Espera Feliz, mas que atuou por vários times da região, é o expoente máximo de todos os amadores que já vi jogar. Guardada as devidas proporções, para o futebol amador da região, ele foi melhor e talvez mais significativo que o Zico para o futebolbrasileiro. Tinha características parecidas e jogava na mesma posição. Não só deixava os companheiros na cara do gol em condições de marcar, como era também artilheiro e finalizador sem igual. Era incapaz de dar um chutão, uma bomba. Seus gols eram todos eles na base do toque sutil deslocando o goleiro com suavidade. Chegava a humilhar a defesa adversária. É inacreditável que alguém com tanto potencial não tenha sido profissional  um ídolo nacional.

AS PROMESSAS DO FUTEBOL FRANCISCANO QUE NÃO VINGARAM


No meu tempo de menino, os melhores de futebol eram: Jolé, filho do Tivalim, Alexandre meu irmão filho do Juquita Marceneiro,  o Cacai do Jair Biciate,  Joãozinho do Pinheiro e o Aloízio irmão do Ézio e da Conceição, filhos do Carvoeiro. O Cleber da Amora não entra porque ficava naroça e seu talento não era  ainda conhecido na cidade
Desses citados o único que jogou muito tempo nos times da cidade foi o Joãozinho do Pinheiro. Os demais não passaram de promessas.
O Jolé era canhoto, jogava na ponta esquerda, tinha bom drible e bom passe. Jogou nas equipes aspirantes e chegou a ser lançado no União. Quando começou a trabalhar na Minas Caixa afastou-se, engordou muito e logo depois fraturou a perna. Nunca mais foi o mesmo.
O Alexandre meu irmão jogava no meio, tinha bom domínio e boa visão de jogo. Seu  estilo de jogar lembrava o Toninho Cerezo  do Atlético Mineiro. No  treino do time do Silas quebrou o pé numa dividida com o Pepê do Italiano e ficou meio traumatizado. Quando ensaiava uma volta tevefratura exposta no joelho,  numa queda na piscina de Fervedouro. Ficou  16 dias internado, pegou infecção e só não ficou deficiente por obra de Deus. Aí encerrou a carreira precocemente.
O Cacai era um craque. Domínio perfeito, drible fácil e finalização precisa. Era pipoqueiro, fugia de jogadas mais duras e na verdade nunca quis compromisso sério com o futebol. Mudou-se para o Rio ainda novo e desde então só participou de peladas.
O Aloísio mudou-se rapidamente para Ipatinga. Acredito que morou em São Chico somente uns dois anos,  tempo bastante para nos encantar com a elegância de seu futebol. Uma vez lá na cidade do aço, começou a trabalhar e abandonou o futebol.

MARQUINHO DO ITALIANO

Ao citar os jogadores de futebol de nossa cidade não dá pra esquecer uma grande promessa,  que talvez só não tenha vingado por obra do destino que o levou muito jovem para o andar de cima. Estou falando de MARCO ANTONIO VÉCCHIA, o Marquinho do Italiano. Meio temperamental, baixinho, raçudo e bom de bola, tinha tudo para ser o orgulho de seu  pai e de toda sua família amante do futebol.


A QUEDA DO FUTEBOL AMADOR


Atualmente  é muito difícil organizar e manter um bom time nas cidadezinhas do interior. As diversões a que as pessoas têm acesso são muito mais variadas e em maior número que antigamente. A programação da televisão aberta, a tv por assinatura, vídeos, motocross, rodeios, cavalgadas emuitos outros entretenimentos fazem diminuir o interesse para o futebol amador.
Hoje pra se formar um time é preciso dar chuteira, buscar o jogador em casa e ainda adular para que ele jogue. O Zé do Nego me disse certa vez que para jogar no União vinha pra beirada da estrada pegar carona e várias vezes fez o trajeto Fervedouro X São Francisco de bicicleta. Jogavapor prazer.
 Por isso que dificilmente vemos grandes jogos nos campos do interior como antigamente. Resta-nos a nostalgia daqueles tempos e assistir às peladas de hoje, que se não são grandes jogos, pelo menos são engraçadas. E o fato de ir para a beirada de um campo encontrar os amigos, tomaralgumas latinhas de Skoll gelada e xingar o juiz ainda é uma terapia maravilhosa. Não há estresse que resista.

FUSÃO DE JOGADORES

Passa-me pela cabeça que se fosse possível fundiu um jogador com outro daria alguns resultados interessantes. Por exemplo a fusão do Waltinho do Divard com o Brás Chiquito daria um grande lateral direito. Isoladamente ao  primeiro falta intimidade e ao segundo falta raça.
Outra  fusão que poderia dar um bom resultado seria a da habilidade do Edinho do Nicolau com o porte físico do Silvinho do Sílvio Mendonça.

A  ANTI – SELEÇÃO

Existe aqueles jogadores que são  péssimos, mas que são insistentes, devotados e em suas mentes consideram-se craques. São na verdade a maioria nos times de futebol amador. Em São Francisco do Glória há um enormidade desses atletas. Pensei em formar uma seleção escalando todos emsuas devidas posições. Como encontrei dificuldade já que a maioria joga em qualquer posição, ou melhor, entram em campo em qualquer posição já que jogar mesmo é outra história. Decidi relacionar de forma aleatória alguns destes heróis da resistência e pedir a ajuda dos leitores para que citemaqueles que lhes vem à lembrança.
Laborão, , Chiquinho Carreiro, Zé Pedra, Tião Chô, Marcelo Altino, Zé Manoel, todos os filhos do Sílvio Mendonça,  Cininho  , Manoel Coelho, Pasceli, João do Tatão Patrocínio, Robson da Amora, Amaral (insistiu muito tempo), Valdeci do Orestes, Olegário e Chico Leônidas, o símbolo maior.
O técnico poderia ser o Bastião do Quidim, o Inacinho ou o Muçum.  Pensando bem os três poderiam formar uma comissão técnica.
Longe de ser uma crítica quero enaltecer a figura desses abnegados desportistas sem os quais o futebol de nossa cidade não seria o mesmo.
Outros que precisam ser louvados pela participação são os juizes que invariavelmente são injustiçados e ofendidos, mas sem os quais não haveria espetáculo. Para homenageá-los estarei publicando em breve uma crônica de autoria do Alexandre Abreu intitulada JUIZ DE PELADA.
Aguardem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário