sexta-feira, 23 de março de 2012

A DIVERSÃO PROPORCIONADA PELA TELEVISÃO.
 João Eduardo Ornelas
 Na década de70, televisão era artigo de luxo.  As residências de São Francisco do Glória que tinham aparelho de TV poderiam ser contadas nos dedos. O  sinal de retransmissão era precário, e os aparelhos àquela época eram todos em preto e branco.
Ainda lembro de minha mãe ouvindo novelas pelo rádio (O Direito de Nascer). O meu nome aliás, foi inspirado num personagem de novela de rádio. A sugestão foi de uma madrinha, a Madrinha Marília que mora em Miradouro e há anos que não a vejo. Lembro-me também do programa de rádioIncrível, Fantástico e Extraordinário que narrava casos sobrenaturais que deixava a gente  de cabelos  em pé.
Naquele tempo para que o sinal fosse acionado era preciso que se ligasse uma chave que liberava energia elétrica para a torre, chave esta que ficava na rua do Vai  e Volta. O encarregado do processo era o Pedro Teófilo, que como a maioria não tinha televisão em casa e por isso às vezes se esquecia da obrigação.  As pessoas interessadas tinham que localizá-lo. O Júlio do Chiquinho Patrocínio era o que mais cobrava do Pedro Teófilo suas obrigações. Quando ele passava recolhendo o lixo  em frente à venda o Júlio dizia:
---Olha lá, heim Pedro. Não vai esquecer de ligar a torre.
A ligação normalmente era às 4 horas da tarde, horário em que começava Daniel Bonne, programação preferida da maioria. Muitos se lembram, aquele  que jogava uma machadinha indígena na árvore  partindo-a ao  meio.
Outras programações que faziam sucesso eram A Viagem ao Fundo do Mar,  o Telequete Montila, Jerônimo o Herói do Sertão, a  Pantera Cor-de-rosa e o Repórter Esso.
 A  meninada, fissurada por televisão tinha que se virar  e freqüentar as casas que tinham aparelho.  As residências  que generosamente nos abriam suas portas para assistir à telinha eram a do Sr. Quito, do Sr. Lauzinho, a do Chiquinho Patrocínio, a do Sr. José Ricardo e algumas outras quenão me recordo no momento.
O Repórter  Esso tinha esse nome por causa do patrocinador, a Esso, distribuidora de petróleo. Muitas pessoas porém pensavam  ser um nome composto, um superlativo: PEPORTERESSO. Ficaria melhor ainda escrito com  cidilha: REPORTEREÇO. Como se fosse  tirambaço, pneuaço oupanelaço.  Reportereço dá a idéia de um montão de reportagem, ou um show de reportagem. Até hoje algumas pessoas mais antigas de São Chico dizem  que está na hora do Repórter Esso, se referindo ao Jornal Nacional.
 Outra coisa engraçada é que a gente brincava  de lutar telequete Montila. A programação era patrocinada pelo Roon Montila e  nos pensávamos quem  montila fosse uma modalidade de luta.

A PRIMEIRA TELEVISÃO

Meu pai, o Juquita Marceneiro, numa ocasião fez uma estante sob medida, preenchendo todo o espaço de uma das paredes da sala do cliente que residia em Muriaé. Tratava-se do Sr. Cirim,  que trazia leite no laticínio e fazia frete para meu pai trazendo compensado de Muriaé. Tinha umcaminhão Dodge vermelho que eu achava lindo e não me cansava de admirar. Muita gente deve se lembrar do Sr Cirim já que era bastante conhecido.
 Aconteceu um imprevisto e a televisão do Sr. Cirim não coube na estante, no local específico. Então para contornar a situação, meu pai ficou com o aparelho como parte do pagamento e o cliente adquiriu um modelo menor. Aquilo para nós foi uma verdadeira festa. A televisão era antiguíssima e tinha na parte de dentro da tela um mosquito morto agarrado. Demorava uns trinta minutos para aquecer todas as válvulas, que ficavam vermelhas igual tomate maduro, mas estava ótimo. O ponto de a meninada assistir Daniel Bonne passou a ser lá em casa. Sentavam-se todos no chão e não dava nempara passar.  Ficamos com essa televisão por muitos anos. Perdi a conta das vezes  que a  velha TV foi para o conserto, lá no Elton Ricardo. Toda vez que isso acontecia minha mãe dizia:
---Vê se tira esse mosquito da tela.
Mas o mosquito sempre voltava, e ela reclamava:
---Ah, meu Deus, voltou com o mosquito. Não tiraram o danado.
 Á noite minha mãe recebia as amigas para assistirem as telenovelas. Lembro-me que o aparelho estava com mau contato no seletor de canais e  era preciso ficar pressionando com a mão para funcionar direito. A novela Mulheres de Areia, em sua Primeira versão com Carlos Zara e Eva Vilma estava em seus capítulos decisivos. Minha mãe e suas amigas me colocavam segurando o seletor de canais, enquanto elas se deleitavam com a Ruth,  a Raquel (que era a mesma Eva Vilma) o Da-lua e Cia. Acontecia que na hora H, justo nos momentos mais emocionantes meus dedos doíam e eu resolviatrocar de mão. A televisão saia de sintonia e a mulherada começava a gritar:
---Segura João, segura pelo amor de Deus.
Noutras horas eu cochilava e a mão escapulia, e era outro escândalo.  Como eu sofri. Mas como sinto saudades!
 Depois meu pai se cansou de consertar aquela TV antiga e comprou uma transtorisada, pequenininha. Uma Philips com máscara negra. Engraçado que quando as televisões surgiram eram enormes; depois foram diminuindo e atualmente voltaram a crescer.
 A primeira televisão à cores da cidade, se não me engano foi do Nelsinho Farmacêutico. Quando muito tempo depois  lá em casa apareceu uma Televisão colorida e estávamos todo na sala no sábado à noite  assistindo ao Incrível Hulk, alguém bateu na porta. Era um amigo nosso que veio  entrando esbaforido e disse:
---Eu vim ver se o Hulk é verde mesmo.

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