domingo, 8 de abril de 2012

MOBRALTECA

MOBRALTECA


João Eduardo Ornelas
Hoje  me lembrei da MOBRALTECA. A galera com certeza se lembra, um caminhão-palco que ficou estacionado onde hoje é a rodoviária do Leno, na época a barraca do Stanislaw. Permaneceu alí por algum tempo, acredito que algo em torno de uma semana, apresentando shows no estilo Domingão do Faustão, cujos protagonistas eram alunos das escolas e atrações da própria cidade na maioria.
Eu mesmo participei da apresentação de um jogral, organizado pela Maildes. Alguns corajosos fizeram um couver dos Trapalhões. O Didi era o Toninho do Italiano, e o Muçum era o saudoso Zé Maria do Padre. Os demais não me lembro.
Participei também de uma brincadeira onde vários participantes foram chamados no palco e convidados a tirarem o calçado que foram todos colocados num saco e levados para dentro. Retornando o saco, o conteúdo foi despejado no chão, e aquele que encontrasse seu par de calçados primeiro, seria o vencedor. Rapidamente encontrei o meu que por se tratar de um Kichute chulezento, me guiei pelo cheiro. Só não o premio porque um infeliz deu um nó cego no cardaço do meu kichute com o cardaço do calçado do Pasceli do Pascoal. O desgraçado do nó era tão cego que tivemos que descer descalços eencontrar um objeto cortante para separar os calçados. Generalizo ao citar objeto cortante pois à nossa solicitação junto ao público, apareceram imediatamente faca, peixeira, punhal, canivete, etc. Esses simpáticos utensílios não faltam nas ruas de São Chico, sobretudo naquela época. Optamos porusar um canivete de um prestimoso cidadão que era o instrumento mais jeitoso que nos foi oferecido e media somente um palmo mais ou menos.
Outras atrações: O conjunto Shaloon se apresentou, o Sr. Xadinho tocou Bandolim acompanhado pelo Seu Nenê Brandão no violão, a Adélia cantou, e o ápice da temporada, o Roberto Carlos de Manhuaçú emocionou toda a cidade. 

Êta memória boa!

LEMBRANÇAS DO DJALMA

LEMBRANÇAS DO DJALMA 11/11/2003
João Eduardo Ornelas 

 

Quero relembrar uma figura típica de São Chico que deixou saudades naqueles que com ele conviveram, devido a seu bom humor e presença de espírito. Trata-se do Djalma Mariano de Souza, que possuía uma venda próxima á casa do Xadinho. Era figura certa na roda de canastra na casa doseu Nhonhô, olhando por sobre os óculos, com as cartas todas desorganizadas nas mãos. Quando pegava o lixo dizia: “Adios Pampa mia”, ou “Adios Muchachos”, significando “sinto muito mas já ganhei”. Seu Nhonhô ficava triscando de raiva. Quando alguém fazia uma contagem de ponto errada, dizia: “o Mobral tá funcionado”. Perdia o amigo mas não perdia a piada.
Pois bem, a historia que quero narrar aconteceu no comércio do Djalma, dessas vendas mal iluminada, onde o cliente entrava tropeçando num saco de batatas, relando a cabeça numa lingüiça pendura num varal, o rolo de fumo sobre o balcão, etc.
Um dia, um cliente pediu cem gramas de salame e uma pinga. Djalma serviu a cachaça e o salame sobre um pedaço de papel de embrulho, como de praxe. O freguês, que tinha os dentes cariados, que mais se pareceriam com pavios de isqueiro, sempre que mastigava um pedaço de salame, dava aquela chupada que emitia um chiado cumprido: “ssssssssiiiiiiiiiissssssss”. 
E após cada chiado, Djalma fazia com a boca:  “Pá, pá, pum, pum.”

E assim prosseguiu aquela coisa esquisita. O homem já estava na sexta pinga e na segunda porção de salame, e o diálogo de onomatopéia prosseguia: 

 

---“ssssiiiiiiiiiiiissssss” 

 

---“Pá, pá, pum, pum”. 

 

Ate que o freguês ficou intrigado e perguntou o que significava aquilo.
---É o foguete, respondeu o Djalma.
---Foguete, mas que diabo de foguete é esse, quis saber o freguês.
No que Djalma respondeu:
---Uai, você não esta imitando o barulho das bombas do foguete saindo, pois eu estou te ajudando e imitando o barulho dos tiros. Você solta e eu estouro.
ROMARIAS A APARECIDA DO NORTE
 João Eduardo Ornelas
        Uma tradição que perdurou enquanto Padre Inácio viveu foram as romarias à cidade de Aparecida do Norte. Todo mês de setembro era aquela festa. Houve ano de saírem mais de 20 ônibus. Para muitos aquele era o único passeio em todo o ano. Além de receber as bênçãos da Padroeira do Brasil os romeiros  aproveitavam para fazer as compras de roupas, lembranças, relógios, bibelôs, etc. E vários o faziam para revender. 
            Muitos iam por farra, a fim somente do passeio e de encher a cara. Eu participei de duas romarias e achei o maior barato, um grande passeio. Não fui somente pela farra, uma vez lá, assisti missa, confessei e comunguei de acordo com as melhores tradições católicas. 
            O mais legal eram as matutagens que as pessoas levavam para comer no caminho: farofa, frango assado, ovo cozido, biscoito, etc. Parece mentira, mas nos Martins já tinha gente merendando dentro do Ônibus. Em Leopoldina o Vicente do Seu Gentil comeu o frango assado que sua mãe haviapreparado. 
O retorno é uma  festa maior ainda. O ônibus lotado de mercadorias trazidas até no colo por falta de espaço. Rádio, radiola, estatueta (alguém trouxe uma estatueta de um pastor alemão tamanho natural que veio no corredor do ônibus), berrante (comparam um berrante  que passou de boca em boca,só que o danado não estava ainda curtido e cheirava mal para caramba), etc. Alguns barganhistas iniciavam as barganhas ainda na viagem. Uma festa inenarrável. 
           Só não participei do encontro com os romeiros na Rádio Aparecida, sabe, aquele assim: Bença mãe, bença pai, tô aqui porque cheguei, tô falando porque cheguei bem. Faltou parceiro, porque senão eu teria topado.

Padre Inácio numa das muitas romarias a Aparecida do Norte. Presentes na foto: Fernando Pinto e Esposa, Chiquinho Patrocinio e Dona Edith, Zé Ricardinho, Angela e Rosa Biciate, Penha de Fervedouro, Levinda, Dona Marta Reis, Zé Pedrosa e Eunice, Júlia Pedrosa, Efigênia, Cila Reis, Maria Zoeira, Mudo e Mariinha do Neca, e outros desconhecidos meus a maioria da zona rura. O local é em frente à Basílica Velha. 
 

Aparecida do Norte. 
Essa a julgar pelo aspecto das pessoas é do início da década de 70. 
No alto da foto vemos o Chiquinho Patrocínio, o Irineu de Araújo Porto. Mais abaixo Solange, Dona Santinha e Sr. Ari Pedrosa. Raimundo Roriz, Zé Ricardo Gordo tendo mais abaixo sua esposa Dona Isaura e ao lado o Padre Inácio. Bem no meio da foto o Lauzinho Laviola, Dona Rosinha e Maria do Lauzinho. Mais abaixo Penha, Marli e Quinca Riqueto, todos de Fervedouro. Mais ao lado aparecendo somente a cabecinha está a Dona Ana do Tatão Patrocínio. Agachados à direira, o primeiro é o Chico do Lauzinho e a terceira é a Efigênia. A menina de vestido é a Glória filha do casal Marli e Quinca Riqueto. 
 

Tãozinho Pedrosa, Antonio Ferreira, Vicente, João e Fernando em 1984
Ailton, Luiz Henrique e João em 1986

COMÉRCIO DE VOTOS

COMÉRCIO DE VOTOS  


João Eduardo Ornelas
 Como todos sabem, em cidades pequenas a regra geral é que não se vota de graça. O valorizado ato cívico muitas vezes vem em troca de algum favor: um tratamento médico, a construção de uma laje, um vestido de noiva, um par de alianças, etc. É evidente que não são todos assim, como todaregra essa também tem as exceções. Há muitos eleitores esclarecidos que votam com consciência e ideologia, felizmente.
Como sabem fui candidato a vereador num descuido meu, o que afinal não lamento pois foi uma experiência boa. Proporcionou-me um grande crescimento pessoal e um aprendizado impar.
Pois bem, nesta ocasião, senti na pele o que é o comércio de votos. Apesar de minha campanha ter sido discretíssima, recebi alguns pedidos inusitados que evidentemente não atendi. Por esse motivo sei que muitos apostavam no meu fracasso  total , ou seja, Capote.
 Quero narrar um fato em especial. Um eleitor me procurou com uma boa conversa, aquela fala mansa de roceiro, me bombardeou de elogios. Ocorreu entre nós o seguinte diálogo:
 --Ocê é um sujeito bão, novo, tem umas idéia boa. É de gente assim que nois precisa. Nois lá em casa tamo pensano seriamente em votá no cê.
 --Obrigado Seu Fulano. Fico muito honrado e espero corresponder à altura.
 --Só que tem um detalhe, eu tô muito precisado de uma coisinha.
 --Diga lá, em que posso ser útil?
 --Eu tô precisando de um bujão de gás. Não é só o gás não, é o bujão com o gás dentro, sem precisá devorvê.
 --Ah! O senhor quer o gás e o vasilhame, é isso?
 --É isso memo.
É bom esclarecer que naqueles tempos idos de 1992, botijão de gás era moeda corrente e considerado um bom investimento. Com a inflação alta, os botijões davam um retorno maior que a caderneta de poupança, tinha mercado fácil e presença certa nas barganhas tradicionais no meio rural.
Continuando o diálogo, mandei pra cima dele um argumento ensaiado e já repetido não sei quantas vezes:
--Pois bem Seu Fulano, estou fazendo minha campanha de uma forma diferente, sem recursos financeiros. Estou apelando para a compreensão e a inteligência de pessoas esclarecidas como o senhor, que tem visão e querem a melhoria de nossa cidade. Se o senhor votar em troca de um favor, ficará constrangido em cobrar do candidato eleito uma conduta satisfatória.
Ele certamente não caiu na conversa pois disse:
 --Tem muito candidato doidim pra me dá o bujão, mas como eu agradei do cê, resorví te dá preferência.
Fiz mais uma tentativa:
--Já que o Senhor disse que agradou de mim e de minhas idéias, quero propor o seguinte. Se esses outros candidatos estão dando o bujão, é porque podem. Já que tem bujão dando sopa por aí, e como o voto é secreto, pegue o agrado e vote em mim. O que acha?
Ele fez cara de ofendido e respondeu:
--Não, ocê tá enganado comigo. Eu sou um homi honesto e de palavra. Se eu der a palavra e pra valer. Voto naquele que der o bujão e pronto.
Eu também não deixei por menos e disse:
--Bom então, já que é assim eu agradeço a preferência e dispenso seu voto.
Ele saiu pisando duro com a testa franzida, subiu na charrete e enquanto manobrava ouvi-o resmungar entre os dentes:
--Depois toma um capote no lombo e fica chorano pros canto.
Algum tempo depois fiquei sabendo que o dito cujo se vangloriava de ter conseguido quatro botijões na campanha. E em quem será que votou? Ninguém sabe. Talvez tenha conseguido um botijão para seu voto, outro para o voto da esposa, e um para cada filho. E olha que segundo comentáriosesse cidadão tem dinheiro para comprar uma distribuidora de gás.
Quanto a mim, fiz minha campanha sem comprar ninguém, apenas no diálogo, não fiquei no capote e me orgulho de cada voto que obtive. 
O único voto que comprei porque caí numa armadilha, eu não levei. O danado do trairão votou noutro candidato. Mas essa história eu conto em outra oportunidade.